O verão no hemisfério Sul está aí. E com ele altas temperaturas, muita transpiração, chuvas e umidade. Mas a estação solar também traz o prazer de se estar em parques, à beira mar, piscinas, nas mesas de bares ou em varandas frescas.

Férias ou não, nos almoços e reuniões de trabalho ou em eventos noturnos, estar perfumado no verão é essencial! Traz o prolongamento do frescor do banho, das árvores e das chuvas… com cheiros suaves e modernos de florais-frutais, plantas, oceanos… Se perfumar no verão faz parte de um ritual, que traz uma incrível sensação de prazer – do sabonete no banho à fragrância para o restante do dia.

Fragrâncias assim como a moda, acompanham os movimentos da sociedade. Os hemisférios têm características e interpretações diferentes do verão, mas se assemelham pelo prazer, pelo gosto da vida. Perceber essas tendências é um trabalho que envolve perfumistas, marketing, toda uma equipe das empresas, com suas percepções da sociedade, da moda, dos movimentos sociais além das casas de fragrâncias e das análises de tendências das agências de pesquisa de mercado. Trazemos aqui então, algumas visões de especialistas de casas de fragrância e grandes empresas do setor para este Verão.

Edições especiais de verão

Algumas marcas internacionais lançam edições especiais para o verão. No Brasil é um movimento que cresce. Marion Costero, perfumista da Givaudan atesta esta tendência: “As Edições de Verão são ações muito populares nos países do hemisfério Norte e crescem em importância no Brasil. Olfativamente e conceitualmente, esses lançamentos trazem códigos típicos de clima tropical: cores ensolaradas com alusão a céu e mar azul e lazer. Olfativamente, vemos notas frescas, cítricas e frutadas como as notas que convidam para uma bebida refrescante, e notas mais acolhedoras como uma brisa no entardecer.”
Marion cita algumas marcas internacionais que atendem a essa demanda: “Historicamente, temos a referência e inspiração de marcas como Escada e Calvin Klein CK One, além de Eternity Summer e outras. A cada ano, essas marcas lançam uma edição limitada de verão, muito esperadas e desejadas pelo consumidor. No caso de Escada, seus lançamentos são colecionados por fãs, ano após ano, trazendo sua identidade visual e olfativa para desfilar, fazendo alusão a destinos badalados de veraneio do Hemisfério Norte.

Givaudan

“Quando pensamos em trends olfativas que irão passear por aqui, acreditamos que os temas gourmand e chypre continuarão a seduzir os brasileiros, mas para um país onde o verão é eterno apostamos também em sun-kissed notes, criações que trazem notas ensolaradas com uma intensidade floral solar cremosa. Uma floralidade revistada por frangipani (nosso jasmim-manga), tiare, jasmim e gardênia juntamente com notas de texturas aveludadas como pêssego e damasco que se complementam em um pôr-do-Sol de notas ambaradas e cintilantes,” avalia Renata Abelin da drom fragrances. E aponta as fragrâncias internacionais que trazem essas tendência: Pele. Sun di Gioia,Giorgio Armani, Sun Shake, Jil Sander, Sexy Sunset, Michael Kors, Soleil Blanc, Tom Ford e Terracota Le parfum, Guerlain.

De acordo com Eliane Bonani, diretora de avaliação da Firmenich, as fragrâncias  que trazem maior frescor vão dominando a preferência dos consumidores. Nessa época, geralmente, todos buscam se refrescar e ter aquela impressão de banho recém-tomado por mais tempo. Nesse caso as Eau de Cologne ou Colônia Splash são mais indicadas para as regiões mais quentes”

Para ela as notas frutais ganham também efervescência com misturas mais cítricas ou aquosas, fazendo a feminilidade floral ganhar mais leveza. “As Eau de Cologne ou Colônia Splash geralmente possuem baixa concentração de perfume, em torno de 2% a 5%, algumas se apresentam a 8%. São bastante populares e usadas no dia-a-dia, como uma prolongação do frescor do banho”, ressalta.

Já nas Deocolônias, Colônias ou Eau de Toilette, a concentração de perfume varia de 8% a 12%. “Trata-se do tipo de perfumação mais conhecido no Brasil e são aquelas fragrâncias usadas para ‘sair’, é a opção que costuma expressar uma identidade, ” afirma.

Para esse verão, especificamente, a diretora de avaliação da Firmenich destaca que as tendências apontam para a experiência da natureza, cada vez mais viva e vibrante, através de notas verdes associadas a florais cremosos. A jovialidade das frutas busca capturar os sentidos logo na primeira impressão, desenvolvendo-se mais gourmand, texturais e confortáveis ao longo do uso. “Esses aromas trazem uma sensação de liberdade, descontração e um empoderamento natural e espontâneo. Buscam a autenticidade que exala na feminilidade de cada mulher”, explica.

Já para as noites da estação, ela destaca que os perfumes costumam ser escolhidos pela mensagem que se deseja transmitir. “Fragrâncias mais quentes adocicadas, amadeiradas passam a impressão de sensualidade e sedução. Já as notas mais frescas e florais, delicadeza e elegância”, aponta Eliane.

Flor do Luar

Para a perfumista in-house da Natura, Veronica Kato, notas de ervas e florais são uma tendência não apenas para o Verão, mas para o ano, assim como as notas mais adocicadas.

“Uma tendência que vem com tudo internacionalmente é o resgate de fragrâncias mais naturais, com notas puras e cheiros mais simples. A perfumaria chegou a um ponto de saturação, que a simplicidade agora tem a sua vez. O consumidor pensa em produtos orgânicos, que usem poucas matérias primas, sustentáveis, que cuidem do planeta. Tudo isso se reflete na perfumaria, com notas de ervas e florais, com pegada genderless. Vale ressaltar também o boom das notas mais doces. Em tempos que estamos mais estressados, cheiros como de baunilha ou os gourmand trazem um acalento à alma, como quando comemos um chocolate para relaxar. Não só para as mulheres, mas para os homens também.”

Ela explica que quem decide o que será tendência são as marcas, através da criação de seus conceitos e convites que contam a história de seus produtos. “Eles podem inclusive se tornar tendências globais, como aconteceu com o uso de ingredientes da biodiversidade brasileira,” diz.

“Baseados nos conceitos e na assinatura olfativa de cada marca, os perfumistas das casas de fragrâncias têm liberdade total para interpretar e traduzir o briefing da marca,” conta. “Por exemplo, para interpretar um conceito genderless, um perfumista pode interpretar como algo olfativamente neutro como um musk, outro pode achar que uma nota cítrica ou amadeirada pode ser considerado genderless. São interpretações diferentes para uma mesma demanda, e todos estão certos! O que é necessário é trabalhar em consenso para atender a expectativa da marca,” diz.

Cesar Veiga, Avaliador de Fragrâncias do Grupo Boticário conta que um time de profissionais especializados e percepções de diversas fontes definem as tendências: “Temos uma equipe de desenvolvimento e marketing que observa as tendências e movimentos de mercado, que assiste novelas, filmes, capta informações online, observa os movimentos de cidades pólo de tendências, como Nova York, Paris, e também os movimentos sociais além de, eventualmente, com agencias de consultoria de tendências ” diz. “Estamos ligados a tudo e traduzimos essas informações como se fossemos uma grande antena, transformando-as em idéias e conceitos.”

“O Brasil é o principal mercado de fragrâncias no mundo. Assim, também somos um pólo de tendências e a nossa criatividade é reverenciada no exterior. O Boticário como uma empresa inserida na perfumaria mundial, leva para fora o jeito brasileiro de fazer perfumes. Nossas marcas que mais fazem sucesso no exterior são Malbec, um perfume que inovou ao criar um Living* a partir do odor da rolha do vinho Malbec e utilizar o álcool vinico em sua composição. O perfume feminino Lily, que resgata da perfumaria artesanal tradicional francesa o método da Enflourrage**, para a sua produção é outro perfume com vendas expressivas e ainda Elysée, uma marca que agrada muito ao mercado Europeu.(* Living – tecnologia de captação de cheiros sem interfererir no ambiente); (**Enflourage – Ancient technique of capturing the perfume of a flower)

Arbo

Cesar aponta alguns cheiros que traduzem o verão e que segundo conta, devem prosseguir como tendência para o ano: “Os florais frutais expressam a alegria do verão, uma tendência que você pode estender para o ano todo. Nos masculinos, notas um pouco marinhas, aquáticas trazendo esse frescor. Agora, depois das crises político-econômicas, sentimos confiança no futuro e criamos a fragrância Arbo Ocean, que é um cítrico amadeirado, trazendo uma respiração mais leve, como se fosse uma brisa de verão.”

“Parece que esse ano começa mais leve que o ano anterior. E a fragrância traz uma sensação de alivio, um floral verde e leve. Esse era um gap no mercado nacional. Tivemos os lançamentos internacionais cítricos, como Dolce, de Dolce & Gabana, que já tem essa pegada floral verde e vimos aí uma oportunidade de traduzir para o mercado brasileiro uma fragrância ainda mais fluida. A palavra de ordem este ano é leveza. Temos que respirar e ter confiança no futuro. Fluidez. Linda Summer é a tradução feminina e é muito divertida, com suas notas frutais. Na verdade ela é uma fragrância para o ano todo, com alegria e alto astral.

Palmolive

Fragrâncias em higiene pessoal

A tendência de ingredientes naturais também está explicita em produtos de higiene pessoal para este verão. A Colgate -Palmolive acaba de desenvolver, em parceria com a casa de fragrâncias IFF, a linha premium de sabonetes Natureza Secreta, para comercialização no mercado de massa, que traz fragrâncias naturais como açaí e maracujá, para transformar a hora do banho em uma experiência sensorial potente. “Este é um movimento importante da marca, que envolveu investimentos tecnologia, tanto na elaboração de fragrâncias, quanto na escolha de ingredientes naturais, para trazer essa categoria para um outro patamar,” diz Marcelo Cruzato, diretor de marketing de Cuidados Pessoais da Colgate-Palmolive.

“Hoje muitas vezes nos expressamos pela fragrância, e perfumaria e design de produto hoje seguem tendências de mercado. Assim, a perfumação hoje é acessório, que evoca uma identidade,diz Tanara Emanuele, diretora de design de fragrância da casa de fragrâncias IFF – International Flavours and Fragrances.

“Temos mercados em desenvolvimento, em diferentes estágios. Vamos sempre considerá-los, mas vamos também encontrar uma maneira de desenvolver do nosso jeito, de maneira que a fragrância se conecte com o consumidor e com o briefing do cliente, sempre com o toque de liberdade de criação do perfumista e sua expertise”, considera Tanara.

Homens – senso de praticidade

O homem normalmente tem um senso de praticidade muito grande e prefere usar apenas produto para suas necessidades: xampu, condicionador, espuma para barba….

“O homem brasileiro ainda é bastante conservador. Então existe uma necessidade que não é tão atendida pelos produtos de massa, que é a perfumaria dentro da categoria de cuidado pessoal,” diz Tanara.

“Para o sabonete buscamos a familiaridade de códigos olfativos – é preciso trazer um pouco dessa estrutura fougere, um toque de fruta – moderno, contemporâneo -, e que traz a aderência com o mercado masculino . Mas também é preciso trazer funcionalidade, já que o homem é direcionado pelo senso de praticidade: se ele puder tomar banho e não usar mais nada on top, muito melhor. Mas, sobretudo, o homem busca a proteção, que vem do antibacteriano”, avalia Tanara Emanuele.

A modernização das notas

Em perfumaria algumas notas caem em desuso para de repente ressurgirem no mercado como tendência, mas elas aparecem renovadas, trabalhadas de um jeito diferente e acabam estourando de novo.

A diretora de design de fragrância da IFF explica: “A Rosa já aconteceu no passado e voltou de uma maneira diferente, renovada, com outro approach. Isso não aconteceu só com a rosa. O Jasmim também já passou por alguns ciclos de renovação. O Chipre também se renovou – no masculino e no feminino – e se aproxima mais agora do Chipre oriental e teve uma aceitação melhor. Assim como o Vetiver, da década de 50/60, de Guerlain, e de Carvin, que voltou hoje em Uomo de Valentino.

“Vetiver que é uma madeira que tem um lado smoke, era rejeitada até três anos pelo mercado brasileiro. Hoje, Bleu de Chanel revolucionou o mercado , trazendo o Vetiver dentro de uma estrutura Fougere clássica, com a troca do cedro e do sândalo pelo Vetiver. Já tivemos na década de 50/60 o Vetiver de Guerlain, de Carvin. Vemos hoje o Uomo de Valentino, onde temos a Violeta, o Vetiver e a Iris. Então a gente consegue perceber às vezes um quebra cabeça…”, conclui Tanara Emanuele, com a graça dos apaixonados por fragrâncias…

Foto principal: Fonte Natura