A entrevista com Andrea Álvarez foi feita durante um evento realizado na Casa da Natura (veja em notícias) em que participaram jornalistas da América Latina, Inglaterra e também do cosméticos br.
1 – Como avançar no diálogo da sustentabilidade entre as empresas que buscam a lucratividade?

Acredito que uma boa maneira é através da certificação B Corp, uma nova maneira de fazer negócios. E aí você começa a explicar que é um grupo de empreendedores, de empresas que querem não serem as melhores do mundo, mas serem as melhores para o mundo. E dessa forma, pensam seus negócios de outra maneira. Não apenas maximizando a lucratividade, mas também considerando todo o impacto na sociedade e no meio ambiente e acredito assim, que essa seja uma boa maneira de avançar o diálogo para mais além da economia.com, para uma nova economia, que muitas vezes utiliza da tecnologia como base para poder fazer negócios de uma maneira diferente também.

2 – Não são todos os empreendedores acabam assimilando essa ideia de sustentabilidade, a tecnologia ajuda a encontrar esse novo caminho?

Precisamos separar aí a ideia de sustentabilidade da prática efetiva de sustentabilidade. Não necessariamente todos querem ser sustentáveis. Algumas empresas não estão optando por esse caminho porque às vezes não conhecem os meios, ainda que tenham boas intenções e queiram entrar nele. Sem querer fazer propaganda do tema, mas me parece que a certificação BCorp acaba ajudando a separar quem está realmente empenhado em fazer as coisas de uma maneira diferente. Porque o caminho não está escrito. É um caminho novo. O que temos são diretrizes, princípios, premissas. Então, quanto mais pessoas se engajam na proposta, mais exemplos reais temos de como elas encontraram uma nova forma de fazer, que não a tradicional, como um ensinou o jovem empresário Thomas Kimber, dono da empresa de óculos Karün, apresentada aqui neste evento. Ele encontrou na sustentabilidade meios para produzir óculos a partir de materiais recicláveis. Ele seguiria um caminho que aprendeu em uma escola de negócios com um único ponto de vista. Mas se perguntou: “É isso mesmo que quero fazer? Não há outra maneira de fazê-lo? Para mim essas questões expressam toda uma consciência. A geração de hoje está cada vez mais consciente, porque tem acesso a muita informação, criam uma concepção e eles têm, acredito, um senso crítico muito antes de nós por exemplo, que não fomos expostos à tantas informações e tão cedo.

3- Para uma empresa grande como a Natura é mais simples empreender essas diretrizes sustentáveis do que as empresas menores?

Difícil qualificar a dificuldade. Eu acho que as dificuldades são diferentes. Eu acho que uma empresa pequena tem dificuldade de encontrar caminhos, de ter acesso talvez a menos recursos humanos ou intelectuais, de conhecimento, tecnologia e dinheiro. Acho que os desafios são esses. Em uma empresa grande o maior desafio é manter seus princípios e valores ao longo do tempo. A pressão por eficiência com redução de custos, entre outros desafios, poderia te levar para um caminho de escolhas não ideais. Então você tem que, o tempo inteiro, se voltar para seus princípios, sua ética, para a sua forma de pensar o mundo e fazer as coisas de um jeito diferente. A gente lida com esses desafios diariamente na empresa. Mas é interessante que a Natura atrai pessoas com essa mesma vontade. Quando eu fui para lá pensei: Achei minha turma! Porque as pessoas entendem. A vontade de lidar com um desafio que é apresentado, e resolvê-lo de uma maneira não convencional, faz parte do DNA da empresa. Então isso é muito motivador.
Agora, isso não quer dizer que a gente não tenha dilemas o tempo todo. Será que não estamos sendo audaciosos o suficiente? Será que não escorregamos aqui ou ali? Acho que o senso de responsabilidade acaba sendo muito maior, porque a empresa já tem uma história de sucesso. Então você tem que assegurar que essa história de sucesso seja mantida com os novos desafios que surgem a cada dia.

4 – Como a Natura pode atuar além do que faz para que se preserve a Floresta Amazônica?

Hoje o que fazemos é através de nosso modelo de negócios que começou com a linha EKOS, mas que hoje permeia a maioria das marcas que produzimos, foi criar um modelo sustentável de negócios onde encontrar a fonte do ativo cria valor local. A fonte por si própria é desenvolvida por uma equipe de campo nossa que está ali para assegurar que a maneira como estão sendo extraídos esses recursos é a mais sustentável possível, que há o desenvolvimento da comunidade, que eles tenham acesso à tecnologia, não apenas a base, mas também o desenvolvimento que vem com isso. Transformamos isso em produtos que efetivamente são muito bons. Utilizamos tecnologia de ponta para desenvolver esses produtos e os colocamos em embalagens ambientalmente seguras e tentamos promover com os consumidores mais consciência sobre as escolhas diárias de compras que fazem.
Mas além disso, teremos um projeto que se chama Projeto Amazônia, que é a busca por fortalecer institucionalmente o Estado do Amazonas. Estamos trabalhando com os governos locais unidades, a sociedade civil organizada e nós, para que nos certificar de que estamos levando mais recursos, mais tecnologia, mais ciência e institucionalização, fortalecendo as instituições locais para que a partir de ali fiquem novas agendas de economias locais. Acredito que nosso maior impacto aí seja justamente de usar nosso tamanho e acesso para atrair mais participantes para a mesa de discussões e aí sim criar uma agenda mais progressiva para que se acelere o projeto aí.

5 – Há um diálogo com o governo?

Há um diálogo constante com o governo, principalmente nessas agendas e acreditamos que precisamos trabalhar com os governos para garantir que o poder público também se mova até a condição de criar no Pará uma agenda estratégica, para que o Estado impulsione uma economia sustentável. Ou seja, muito mais discussões para que se encontrem maneiras geradoras de se fazer negócios sustentáveis. Trabalhamos com diferentes associações e governos locais quando podemos, mas muito mais através das associações.

6 – Com a mudança na lei de regularização da comercialização dos ativos da Amazônia, hoje, na prática, como isso funciona para as empresas?

Não sou especialista na lei, mas acho que posso lhe dar um panorama geral. Existia uma discussão sobre o retorno para a comunidade da extração correta do ativo para proteger a biodiversidade local, mas também assegurar que se retornasse à comunidade de origem, aquilo que é justo. Não existia uma interpretação muito clara quando começamos a atuar na região há 20 anos. Fomos aprendendo nesse processo e criamos algumas regras internas que nos pareceram corretas e inclusive em negociação com a comunidade. O que mudou recentemente da lei é o percentual que está sendo considerado para esse retorno e o mecanismo para a devolução para a comunidade. Antes ele ia direto para a comunidade e agora ele vai para um fundo federal, e esse fundo federal tem que ser acessado pela própria comunidade, mas acessado via federal. O que estamos trabalhando agora com as comunidades é como capacitá-los para que eles possam aceder a esse fundo.
O mesmo se dá com o conhecimento tradicional. A lei é válida também para esse aspecto.

7 – Porque a área de sustentabilidade está associada ao marketing?

Na verdade, hoje tenho três áreas comigo: Marketing Inovação e Sustentabilidade. A ideia de fazer isso é porque a Natura foi historicamente extraordinária quando juntou essas três áreas quando éramos capazes de fazer inovação com uma perspectiva sustentável, com as marcas que tínhamos, com o propósito de uma causa.
Marketing porque é através das marcas que mudamos o mundo, porque a Natura nasce de duas paixões: paixão pela cosmética e paixão pelas relações que se transformaram no conceito de Bem-Estar Bem. É através da cosmética que nos propomos a fazer isso. Foi o que aconteceu com Chronos, quando lançamos há 30 anos uma linha anti-sinais que quando todo mundo falava em Forever 27, propusemos Chronos reconhecendo as diferentes idades das mulheres, que o tempo passa e que está tudo bem. E depois lançamos a campanha da Mulher de Verdade. Com isso mudamos estado de espírito, atitude e maneira de ver o mundo. Fizemos também com a linha Mamãe & Bebê em que promovíamos o vínculo da mãe com o bebê através de um produto, que era o óleo e a técnica de massagem Shantala para amplificar esse vínculo. Também quando lançamos Ekos que criamos todo um modelo de negócio. Isto é o que tem movido o modelo de negócio Natura desde sempre. É através de suas marcas que ela faz uma declaração de algo e através de seus produtos muda como as pessoas se vêem e vêem o mundo.

8 – A perfumaria da Natura chegou a usar frascos PET em seus produtos e depois mudou para vidros e agora vidros reutilizáveis. Seria por manter essa perfumaria mais nobre e competitiva com outras empresas do mercado?

Ainda mantemos o PET para refis e PEV, o plástico verde feito a partir da cana de açúcar para alguns produtos de higiene pessoal. Hoje a gente desenvolveu a tecnologia para conseguir incluir vidros recicláveis em mais linhas. Estamos com 20% e vamos para 30% de vidro reciclado em todo o nosso portfólio de vidros. Isso é um desenvolvimento de P&D de anos de nossos parceiros,  para conseguir  ter vidro com qualidade e estética. Porque não funciona desenvolver produto sustentável que não tenha atração. Não funciona. Então só vamos conseguir mudar se conseguirmos oferecer atração para o que oferecemos. O frasco sendo bonito podemos manter a refilagem em PET.