1 – Você disse que o empoderamento é um termo brasileiro que ganhou o mundo. Como foi isso?

Empoderamento é um tema criado nos anos 60 pelo Paulo Freire, que é um grande educador, quando ele criou as teses sobre educação no Brasil. Sua premissa era de que empoderar uma pessoa é capacitá-la para que ela saia de uma situação de vulnerabilidade. Então você tira as pessoas de uma situação de menos valia ou de risco, ou de vulnerabilidade a partir de uma capacitação. Isso é empoderar. Então o que é capacitar? Capacitar é conhecimento – estudar, conversar, entender que você pode ter ajuda. Quer dizer: existem várias coisas que você pode fazer. O conceito foi levado aos Estados Unidos na época e o termo empowerment foi dado lá, a partir da tese de empoderamento que Freire criou, mas esse é um tema brasileiro, criado aqui que tem muito a ver com a nossa situação.


2- Desde quando o conceito lhe interessou e como você passou a disseminá-lo?

Eu trabalho com essa ideia há muito tempo. Acho que até antes mesmo de saber o que queria dizer empoderar, porque eu sempre eu quis ser independente. Então eu entendia que para ser livre eu tinha que ser dona do meu nariz e para isso eu teria que ter dinheiro. Ser empoderado para mim significa poder cuidar e pagar a própria vida e ajudar as pessoas que estão ao seu lado fazerem a mesma coisa.

E pagar a vida tem a ver com Ganhar, Gastar e Investir em proporções iguais. Não é só um problema de ganhar mais, mas é um problema de gastar menos do que você ganha e de investir bem com aquilo que sobra. Eu acho que as pessoas não percebem que isso é uma trilogia. Cada um acha que o seu problema é um: eu ganho pouco, ou eu gasto muito, ou eu não sei investir. E na verdade são as três coisas juntas.

E quando eu comecei a procurar dentro da minha empresa porque não tinha mulher no topo da carreira, eu descobri que as mulheres não estavam no topo porque elas não tinham dinheiro guardado o suficiente que desse a elas uma segurança para que pudessem expressar o que queriam, exigir e pedir as coisas que elas acreditavam, porque elas achavam que podiam ser mandadas embora.

A partir daí, para empoderar as mulheres que trabalhavam comigo e que estavam ao meu redor na minha vida, seria ensiná-las a ter mais dinheiro na conta e também mais organização. Porque se eu pergunto para uma pessoa: quanto você ganha e ela me responde não sei. Quanto você gasta, não sei. Então como é que essa pessoa vai poder tomar conta da própria vida? Por outro lado eu descubro muitas mulheres que acham que se organizar basta. E anotam cada centavo que gastam sem analisar sua situação. Não basta contar cada centavo. É preciso técnica e pensar nos três tripés: como é que eu faço para ganhar mais? Como é que eu faço para economizar mais, como é que eu faço para controlar os meus gastos e sobrar dinheiro e o que é que eu faço com a sobra. Essa é a análise em cima de uma planilha.


3 – A necessidade ou o gosto pelo dinheiro são as principais motivações para a aplicação dessas técnicas?

A principal ferramenta é o sonho. Se você não souber para o que quer conseguir esse dinheiro, você não vai conseguir guardar. Então para quê? Quando eu era pequena eu queria estudar inglês, depois eu queria comprar um carro, depois uma casa e daí por diante Hoje eu já tenho tudo o que preciso. Então tenho outras motivações, como ajudar a transformar a vida das pessoas do país onde moro. A gente precisa ter sonhos!


4 – Para que públicos você ensina essas técnicas?

Eu desenvolvi uma plataforma para todo tipo de empreendedoras pequenas, não é só para as revendedoras de venda direta. Os problemas são muito parecidos. Em geral as mulheres não sabem guardar dinheiro, não sabem controlar seus gastos e desconhecem gestão. Fazer apenas uma dessas coisas não adianta.

Cada empreendedora tem um caso especial. Comecei a juntar mulheres para um grupo de conversas. Acabei entrevistando cerca de 300 mulheres empreendedoras para entender seus problemas e comecei a lhes falar sobre como se faz para juntar dinheiro, que era um problema comum num certo ponto, e que acabava por prejudicar todo o desenvolvimento que elas tinham obtido. Como não fazer uma planilha? Ensinei e depois as que tinham feito repassavam às outras. Outra grande questão do grupo de empreendedoras era como vender mais? São as questões do empreendedorismo. Fiz um livro com todo esse material, que deverá ser lançado em breve.


5 – As novas mulheres empreendedoras, nessa nova campanha da Avon tem entre 18 e 34 anos, dentro do novo posicionamento de torná-las independente financeiramente para adquirirem empoderamento. E no mercado em geral?

As mulheres que estão no mercado tem todas as idades. Eu acho que as mais novas tem muita vontade de empreender. Há menos mulheres com vontade de ser funcionária e muita mulher com vontade de empreender, para poder ter mais liberdade de agenda.

Não significa que você trabalhe menos. Às vezes trabalha até mais, mas você é dona da sua agenda. Mas eu acho que as mulheres mais velhas também tem muita vontade de fazer coisas, mas acham que já não conseguiriam retornar ao mercado de trabalho.Não tem coragem de enfrentar novas situações. Eu atendo todas.

Faço grupos de conversa de 40 a 60 pessoas, aonde me convidam. Desenvolvi um grupo de conversa e um livro e para chegar àquelas mulheres que eu não encontro, desenvolvi uma plataforma digital online www.denisedamiani.com. Há também a plataforma do Itaú : www.imulherempreendedora.com.br, mas é preciso ser correntista do Banco Itaú para poder acessá-la.


6 – Porque as mulheres não sabem poupar e investir? E como isso pode mudar?

Elas podem mudar a partir da reflexão e do estudo, para adquirir mais conhecimento da situação de suas empresas. Então as bases são: estudar, conversar, pedir ajuda ou copiar de alguém que está fazendo bem e até estar ativa socialmente. Quer dizer, este também é um trabalho coletivo. Quando você está sozinho você começa a pensar sempre a mesma coisa. Você só começa a se abrir para novas reflexões e novas idéias quando você está em grupo. Então esteja em grupo, converse com as pessoas que estão do seu lado, peça ajuda. Haverá sempre alguém disposto a ajudar.


7 – Você falou em ter um sonho para ter motivação. Ter conhecimento é ferramenta principal para se conquistar um sonho?

Conhecimento é tudo. Não adianta ter só paixão. Você tem que aliar paixão com conhecimento.

 

*Denise Damiani é Engenheira de Sistemas Digitais, desenvolveu os primeiros softwares de Home Banking. Foi Sócia da Accenture, VP de Estratégia na Itautec e nos últimos 2 anos é sócia da Consultoria de Estratégia Bain & CO.

 

Foto: Marcela Beltrão / Agência O Dia