A América Latina é considerada uma das principais regiões fornecedoras de ingredientes naturais para cosméticos orgânicos. Isso porque os países latinos possuem uma variedade climática e vegetal, além de localização privilegiada.

Em entrevista para a in-cosmetics Latin America, John Jiménez, principal cientista de pesquisa do departamento de P&D da Belcorp, na Colômbia, que visitará a feira este ano, explica que, pela região latino-americana possuir diversidade no nível cultural, étnico e social, suas tendências típicas são essenciais para satisfazer as necessidades da população. Confira a entrevista:

 

1 – incoslatam: Dados recentes indicam que Colômbia, Peru e Brasil contribuem com 26,8% do total de ingredientes cosméticos orgânicos em todo o mundo. Como você avalia essa representatividade?

John Jiménez: Esses dados são muito interessantes porque esses países estão no grupo dos mais biodiversos do mundo. O mais interessante é que esse percentual tende a subir, pois atualmente conhecemos muitas iniciativas de pesquisa de materiais naturais e orgânicos com aplicação em cosméticos que estão sendo desenvolvidos na região.
A definição de desenvolvimento sustentável (que foi apresentada em 1987 no Relatório Brundtland) indica que é “para atender às necessidades atuais sem comprometer as necessidades das gerações futuras” e para conseguir isso, os esforços devem ser dedicados a três aspectos: viabilidade responsabilidade econômica, social e ambiental. Na região, estamos vendo, depois de muitos anos de trabalho, que esses três aspectos estão sendo abordados com sucesso por empresas tradicionais e, ainda, por novas iniciativas.
O desafio que temos em nossos países é garantir a transferência de tecnologia para que não tenhamos riscos na cadeia de suprimentos de novos materiais e também trabalhemos lado a lado com Universidades e Centros de Pesquisa para desenvolver novos métodos de produção que garantam volume de matérias-primas, porque em alguns casos não devem ser consideradas culturas tradicionais como forma de obter a produção dos ativos.

 

2 – incoslatam: Falando especificamente sobre a Colômbia, quais são as principais tendências para os próximos meses?

John Jiménez: Na Colômbia, temos tendências de consumo muito interessantes projetadas para os anos seguintes. Vemos tendências que se originam das características do país, e, também, das tendências do mercado externo. Entre as mais importantes podemos mencionar:
– Sempre jovens: os limites da velhice são deslocados e as pessoas não querem ser segmentadas pela idade. Os consumidores mais velhos querem ser tratados como jovens. Estamos vendo como alguns baby boomers são viciados em tecnologia e dispositivos. Isso lhes dá a capacidade de entender melhor as propriedades e benefícios de produtos e marcas de cosméticos, são pessoas que investigam novos produtos e tendências.

-De volta ao básico: Essa tendência é muito interessante porque vemos um desejo do consumidor por produtos simples, minimalistas e de alta qualidade. Vemos um boom de restaurantes, cafés de nicho e marcas de cosméticos que estão comunicando em conceitos a descoberta e o uso de ingredientes tradicionais e ancestrais.

– Consumidores conscientes: Os consumidores estão cada vez mais preocupados com os testes em animais, o consumo de água, a geração de resíduos e, em geral, os elementos relacionados à responsabilidade social. Também vemos uma forte corrente em produtos alimentícios, roupas e calçados livres de ingredientes animais.
-Petmetics: O respeito pela qualidade de vida e bem-estar animal está em ascensão e vemos em grandes e pequenas cidades a ascensão de pet shops. Além disso, o conceito de animais de estimação começa a ser constante em bares, restaurantes e lugares da moda. Isto implica uma grande oportunidade no desenvolvimento de cosméticos para o bem-estar animal. Na Colômbia, é comum fazer um voo doméstico e ver os passageiros com seus animais de estimação, mesmo aqueles que compram cadeiras para seus cães ou gatos.
-Plástico livre: Essa tendência também é muito desenvolvida no país e é interessante porque existem supermercados onde não dão mais sacolas plásticas em alguns dias da semana e estamos voltando a usar itens tradicionais como bolsas tricotadas a mão e cestas para ir ao supermercado ou ao centro comercial. Esta é uma tendência muito boa que está ajudando muitas comunidades a desenvolver produtos para atender a essa demanda. Essa é uma tendência que também vemos profundamente enraizada em marcas indie e de nicho locais, até marcas massivas e de luxo.
– Famílias de uma pessoa: As estatísticas são impressionantes, já que a Colômbia é um país onde o número de famílias de pessoas solteiras está crescendo em porcentagens de dois dígitos. De 11% em 2005, 14,5% em 2014, 16,32% em 2017,  para 18% em 2018. Segundo a Pro-família (instituição colombiana), existem mais de 20 tipos de família. Mas será que marcas conhecem esses consumidores, seus desejos, necessidades e insights?
-Gênero e Inclusão: Esta é uma tendência muito interessante para as empresas que nascem com a visão “somos todos humanos e não queremos rótulos”. Estamos vendo que alimentos, roupas, cosméticos, centros de entretenimento, turismo etc., no país estão mais inclusivos e a diversidade é o novo negro.

 

3 – incoslatam: A busca por matérias-primas inovadoras é sempre um ponto importante para os fabricantes de produtos de beleza e higiene pessoal. Como o sr. seleciona esses materiais? John Jiménez:  O perfil de inovação e diferenciação é fundamental na seleção de matérias-primas para novos desenvolvimentos. Em um mercado tão competitivo quanto o de cosméticos, é essencial ter opções de ingredientes que permitam criar disrupções e conceitos originais. Neste ponto, o boom de ingredientes orgânicos deve considerar outros elementos de diferenciação para complementar seu perfil de inovação, por exemplo, determinar novos mecanismos bioquímicos de ação, estudos de eficácia in vitro, novos produtos ex vivo e in vivo, focados na segurança do consumidor e proporcionar novas experiências.

 

4 – incoslatam: Como a feira da in-cosmetics Latin America ajuda nesse sentido?

John Jiménez: Esta feira posicionou-se como a mais importante globalmente, nas suas diferentes edições geográficas, pela inovação em cosmética. É interessante, porque na feira, podemos visitar diferentes fornecedores e conhecer os últimos lançamentos e desenvolvimentos tecnológicos, palestras técnicas, conferências sobre tendências e, também, acesso às mais recentes publicações científicas e tendências que são apresentadas na feira.

 

5 – incoslatam: Como funciona a área de Pesquisa e Desenvolvimento da Belcorp? John Jiménez: A Belcorp possui um departamento de Inovação e Desenvolvimento composto de mais de 200 pessoas focadas em encontrar necessidades não atendidas e novas oportunidades de mercado. A empresa possui uma equipe administrativa, técnica e científica de classe mundial. Trabalhamos em conjunto com os principais fornecedores internacionais de ingredientes, excipientes e ativos cosméticos. A empresa possui uma rede de laboratórios internos que estão à frente em questões analíticas, sensoriais e de eficiência e temos colaborações com as principais empresas, produtos de ativos e excipientes em todo o mundo. Estamos sempre avaliando tecnologias inovadoras, o que nos permite lançar aproximadamente 200 novos produtos por ano.

 

6 – incoslatam: Qual o faturamento da empresa no ano passado?

John Jiménez: Em 2018, a venda corporativa foi de mais de 1 bilhão de dólares.

 

7 – incoslatam: Na sua opinião, o que faz com que a indústria colombiana e a indústria cosmética latina sejam diferentes dos mercados europeu, asiático e norte-americano? John

Jiménez: A América Latina é uma região mega diversa em um nível cultural, étnico e social. Há tendências que são típicas da região porque satisfarão as necessidades da população. Isso se reflete, por exemplo, de maneira muito óbvia, no mercado de produtos para cabelos. Podemos dizer que a região é onde esse mercado é mais especializado, já que encontramos muitos tipos de cabelo. O clima da região é outro dos motivos que diferenciam a indústria cosmética latina e, por isso, o desenvolvimento de formulações e experiências sensoriais tem desafios únicos. Acreditamos que, no curto prazo, a América Latina será uma tendência em algumas categorias que terão influência global.

 

O credenciamento para a in-cosmetics já está aberto. Clique AQUI