1 – Como os lançamentos do setor magistral influenciam as indústrias cosméticas?

Atualmente temos que entender que uma matéria prima consegue ser utilizada pelas farmácias de manipulação de uma maneira mais rápida do que pela indústria.  Uma matéria prima que é lançada hoje na in-cosmetics global, que é onde a maioria das empresas lançam seus produtos, o profissional de farmácias de manipulação,  consegue ter uma tomada de decisão muito mais rápida para a produção de um novo produto que o da indústria cosmética, claro que com um distribuidor no país. Mas já houve casos em que conseguimos um fornecedor exclusivo só para a farmácia de manipulação – como é o caso do Inaclear, um clareador de pele que só é encontrado em farmácias de manipulação.

Outro ponto interessante, é que alguns ativos começam a fazer tanto sucesso via farmácia de manipulação – que visitam dermatologistas, divulgam intensamente o produto na mídia – que as indústrias de produtos acabados passam a se interessar por um produto acabado com aquele conceito. Um deles é a Cisteamina, que é um clareador de pele, já bem conhecido nos Estados Unidos, mas que as farmácias de manipulação em três meses mais ou menos, vem comercializando e divulgando fortemente o produto. Agora as indústrias de cosméticos do país estão se movimentando para lançar produtos com o ativo. Então os lançamentos magistrais acabam influenciando a indústria cosmética.

Recentemente, lançamos um demaquilante para as farmácias de manipulação, que se chama Borracha  para Maquiagem. É um demaquilante que  hidrata a pele, com um conceito diferenciado. Algumas indústrias já entraram em contato para adquirir a formulação, mostrando que a indústrias estão atentas ao que as farmácias estão fazendo. E vice-versa, é claro. A farmácia de manipulação também se beneficia bastante do que a indústria está lançando.

 

2 – Então elas são mais ágeis que as indústrias cosméticas?

Com certeza elas são muito mais rápidas. Em 2012 eu trabalhava em uma grande indústria de cosméticos e fui com um amigo para  a in-cosmetics global, aquele ano em Barcelona. Esse amigo trabalhava em uma farmácia de manipulação. Quando voltamos para o Brasil, ele conseguiu colocar grande parte dos ingredientes pelos quais ele se interessou, em comercialização. Produziu o material, começou a visitar dermatologistas e a farmácia começou a vender. Ativos que há duas semanas haviam sido lançados na in-cosmetics global. E eu não consegui nesse período a mesma desenvoltura. Nem uma reunião de alinhamento para ver se o marketing tinha interesse em produzir algum produto com os ativos mais intressantes que eu trouxe da feira. Então a indústria não tem essa agilidade que a farmácia de manipulação tem.

 

3 – O Boticário começou a partir de uma pequena loja de fórmulas magistrais e foi ágil o suficiente para ser uma das principais indústrias de cosméticos e higiene pessoal brasileiras. O sr diria então que há uma chance de outras empresas pequenas  também alcançarem crescimento significativo?

Creio que chegar a um patamar de Natura e Boticário, que mais do que farmácias, foram pioneiras, é muito difícil. Os produtos que essas empresas têm entre os mais vendidos  – hidratantes, cremes para o rosto, produtos de higiene pessoal, já estão ligados a um nome, uma marca conceituada. Por serem pioneiras e terem adquirido a dimensão que elas têm, eu acho difícil uma farmácia de manipulação de hoje chegar nesse patamar. Mas já existem farmácias de manipulação que também lançam produtos industrializados com a sua própria marca, mas sem serem  manipulados. Eles continuam a fazer seus produtos manipulados, e têm suas versões industrializadas. Vendem alguns produtos, como: xampus, hidratantes, protetor solar, maquiagem. Várias empresas já tomaram esse caminho. Se eles vão chegar a um patamar comparável ao do Boticário e Natura, depende de muitas coisas e só o tempo é quem vai dizer.

 

4 – Sendo o princípio ativo a base de qualquer produto, de que maneira o sr. entende que ele chega à farmácia de manipulação antes da indústria, que busca por ativos no mundo inteiro, inclusive em grandes feiras de fornecedores realizadas no país?

Hoje em dia expomos na in-cosmetics global como Instituto de Cosmetologia. Participamos todo ano e trazemos todas as novidades para o Brasil. Essa feira acontece em abril. Em julho já temos o Congresso Consulfarma onde a maioria das novidades que são vistas no exterior são trazidas para o Congresso, que é frequentado por inúmeras farmácias de manipulação de todo o mundo. Então elas, seus diretores e profissionais acabam sabendo dessas novidades quando vão para o Congresso. Ou seja, eles vão para a in-cosmetics e ao encontrarem uma matéria prima interessante que ninguém tem aqui no Brasil e fecham um pedido exclusivo. Então é assim que a farmácia consegue sair à frente da indústria. Óbvio que o canal de divulgação da farmácia é muito menor. Então quando a indústria lança um produto com um ativo especial, parece que ela é pioneira e inovadora, mas muitas vezes esse ativo, essa ideia, já foi lançada por uma farmácia de manipulação. Um exemplo é o de 2007, em que  trabalhamos em uma fórmula de sabonete que espumava sem a necessidade de molhá-lo para uma farmácia de manipulação. Você coloca na pele e ele, em contato com o oxigênio, começa a criar uma espuma bem abundante.  Foi uma inovação e o chamamos de Sabonete Efervescente na época. Em 2012 eu estava trabalhando em uma grande empresa que estava trabalhando, testando esse sabonete. Obviamente que se a empresa tivesse lançado (o que não aconteceu por questões diversas) seria algo super inovador. Ninguém saberia que em 2007 as farmácias já lançavam e utilizavam essa tecnologia.

 

5 – A 14 ª edição do Congresso trouxe tendências em nutri e dermocosméticos. O sr. poderia mencionar algum destaque?

O 14° Congresso Internacional de Tendências de Beleza  Consulfarma trouxe o Spray  que promove leve sonolência e sensação  de relaxamento através da mistura cientificamente comprovada de óleos essenciais.   Tivemos o Perfume em Espuma com ação hidratante e antipoluição ; a Borracha  para Apagar Maquiagem, o Chip Capilar para detectar geneticamente o melhor cosmético para o cabelo e o Cosmético para Queda Capilar com um sistema avançado de entrega de ativos, e liberação controlada e específica de Minoxidil (ativo antiqueda). Mas a sensação mesmo foi a Borracha  para Apagar Maquiagem, que tem alta afinidade com  os componentes de maquiagens e remove com facilidade os pigmentos do rosto. Foi lançado também um Gloss e Batom Antiacne que quando aplicados nos lábios fazem com que os probióticos presentes na formulação comecem a proliferar pelo rosto inteiro, interagindo com as bactérias responsáveis pela formação da acne, gerando uma diminuição  das colônias dessas bactérias e consequentemente o quadro de acne.

 

6 – O sr. diria que os nutricosméticos complementam a indústria da beleza e deverão ser uma tendência irreversível?

Sim, com certeza. Os nutricosméticos, substâncias também   chamadas de nutracêuticos, são substâncias que apresentam efeitos antioxidantes, reduzem a formação dos radicais livres no organismo, previnem e tratam os processos de envelhecimento e dano solar na pele, além de estimular o colágeno, desempenhar papel de fotoprotetor, reduzir a acne e melhorar a hidratação.

Seus benefícios são rapidamente perceptíveis por serem capazes de potencializar as ações dos ingredientes e em conjunto promover as ações desejadas.

A Nano Pearls Symbiocaps por exemplo, contém Lactobacillus Acidophillus com ações probióticas que proporcionam o tratamento de rosácea, tratamento de acne, minimização de poros, tem ação revigorante e atua na prevenção do envelhecimento da pele e proteção ativa contra agressões externas.

A Fagron, trouxe o TrichoConcept, a primeira linha global de cuidado e higiene capilar que restabelece o equilíbrio da raiz, do couro cabeludo e dos fios. Tudo sem conservantes, alérgenos e corantes, voltado para o novo consumidor mais sustentável, saudável e conectado.

Na verdade, os nutracêuticos vão muito de acordo com a terapia ortomolecular. São antioxidantes potentes que ajudam a inibir os radicais livres e a inibir enzimas que degradam o colágeno, portanto,  com certeza eles são um caminho sem volta, porque eles complementam  de dentro para fora o que os cosméticos fazem de fora para dentro. É um efeito  sinérgico entre os dois sim.

 

7 – Como cosmetólogo e farmacêutico o Sr acha que essas mudanças climáticas que fazem nevar no Sul do país e provocam frio intenso em grande parte do país, apontam para a necessidade de criação de cremes mais densos, mais ricos?

Eu acho que com essas mudanças, a temperatura abaixo de 10 graus, os produtos cosméticos já requerem um ativo hidratante em maior concentração, uma quantidade maior de manteigas de óleos vegetais . Então acho que teremos que pensar em produtos sasonais, que hidratem com maior intensidade a pele no inverno assim como hidratantes que façam o mesmo no verão, mas nesse caso, com hidratantes mais sequinhos, não pegajosos e que absorvam mais rápido. Além disso, com essas mudanças drásticas de temperatura, eu acho que está na hora também de pensarmos como na cadeia produtiva de um cosmético, deixá-lo mais sustentável, emitindo menos carbono, diminuindo a poluição ambiental, porque essas alterações climáticas são de fato um resultado de alterações que estamos fazendo no planeta e aí a indústria cosmética pode influenciar muito nisso, evitando o consumo exagerado de ingredientes minerais que acabam emitindo durante o seu processo de fabricação e síntese, gerando muita poluição e gás carbônico para a atmosfera e o resultado é isso que estamos vendo. Então a indústria cosmética vai ter que movimentar aí de duas formas: 1 – criando produtos mais adequados e evitando essas alterações drásticas de clima que é o resultado do que plantamos no passado e ainda hoje.