A artista plástica Maki Ueda traz a São Paulo a quarta versão da obra Aromas e Sabores. Ela considera o olfato como a “nova mídia” e costuma usar o cheiro para estimular a imaginação. Fala ao cosméticos br sobre diferentes percepções do cheiro, como mídia que comunica, e estimula a imaginação, além de sua construção artístico-olfativa para a instalação na Japan House.


1 –  Por que você decidiu, como artista, trabalhar com aromas?

Como estudante de informática e arte de mídia, foi um passo natural para eu usar o cheiro como mídia, porque uma xícara ou um copo podem ser mídia, porque não o cheiro e o sabor? Então há dez anos passei a usar os cheiros em arte, porque o cheiro é para nós, como uma coisa prática, para se usar, como detergente, perfume, para o dia a dia enfim, eu quis pesquisar mais a respeito, mas ao nível das emoções, memórias e associações. No Japão usamos os aromas para aromaterapia, para a saúde, mas eu queria focar mais nos aspectos culturais dos cheiros.


2 – Como uma referência de comunicação?

Por exemplo, quando você usa um perfume específico, exuberante, você está criando esta atmosfera para si, em uma festa por exemplo, como uma aura. Ou uma fragrância que transmite elegância e até sofisticação, mas mais discreta, para uma reunião de negócios ou em uma conferência. Uma fragrância ou aroma comunica uma percepção, por isso considero o cheiro uma mídia. É muito interessante porque cria a sua imagem. Imagine à distância, se alguém que você não conhece, chega perto e sente o seu perfume. Essa pessoa naturalmente terá uma percepção maior sobre você, algo mais definido O biólogo Lyall Watson disse  uma vez:  ‘O cheiro alonga o tempo e o espaço’.


3 – Como o olfato cria percepções?

O olfato cria percepções e amplia a consciência sobre as coisas e sobre as pessoas Uma mídia faz isso. É algo que tenho pensado muito nos trabalhos que faço e acabei chegando a essa conclusão. E também tive esse entendimento estudando os biólogos. Eles veem o cheiro sob o aspecto dos feromônios. Para animais e insetos cheiros são sinais para se alimentarem e fazerem sexo. Nós humanos temos essa percepção um pouco diferente. Nós temos uma cultura mais sofisticada em torno dos cheiros que recebe muitas, variadas e profundas mensagens culturais que podem nos levar, por exemplo, à percepção de uma pessoa, ou de sua intenção em um determinado momento, a partir de um perfume.


4 – Essas percepções humanas do cheiro, culturalmente mais sofisticadas em relação à dos animais, seriam as mesmas independente de níveis socioeconômicos?

Depende do contexto. Então se você está planejando transmitir uma mensagem a partir de um cheiro em um contexto diferente do que as pessoas têm familiaridade, é possível que a sua mensagem não seja completamente entendida ou percebida. O Japão, por exemplo, tem uma cultura diferente para perfumes, da cultura que vocês têm aqui no Brasil ou na Europa. Não usamos muito. O perfume para nós é utilizado muito mais para aromaterapia, cura, saúde.


5 – Em relação a níveis de percepção, algumas pessoas dessa exposição puderam identificar os cheiros, outras não. Isso tem a ver com sensibilidade, ou treino?

Treino, certamente. Treino é um aspecto que faz a cultura do cheiro mais rica. Farmacêuticos, floristas, pessoas que trabalham com a natureza, como agricultores ou pessoas que trabalham com a mata e flores, têm o sentido do olfato mais apurado. Ma isso não está no contexto. O perfume por si só é um contexto, já que você aprende sobre notas cítricas, amadeiradas e assim por diante na literatura sobre cheiros. No Japão também aprendemos, mas em uma tradição totalmente diferente: a dos Incensos. Eu também tive treinamento e você tem parte do treino porque você está na profissão.
A perfumaria é um ofício em si, tradicional, mais desenvolvido na França. E é preciso aprender a tradição também. Porque esse é um mundo que se comunica através de notas.

 

6 – Como você construiu essa obra em que se percorre na busca do cheiro de flores de cerejeira?

Há um formato. Construi minha obra com esse cheiro em 4 diferentes concentrações. As concentrações mais fortes estão escondidas na obra e as pessoas precisam percorrê-la para sentir as diferentes concentrações e encontrarem onde estão os focos do cheiro da flor de cerejeira.
A concentração mais forte é de 10%, a segunda de 0,33% e então de 0,1% e 0%. Esses 4 passos de diferentes concentrações faz com que em cada um se sintam as diferentes concentrações. Na menor concentração você pode perceber o cheiro de limão. Na segunda menor concentração você consegue perceber um cheiro atalcado e na maior concentração você sente o cheiro total e doce da flor. É possível também se sentir o cheiro de amêndoas, porque a cerejeira e a amendoeira são árvores da mesma espécie. E se parecem também.