Num ano em que a Symrise inaugura sua fábrica num parque ecológico na Amazônia e que reforça seus investimentos no mercado Latinoamericano, responsável por 13 % do faturamento mundial da multinacional, MauriceRoucel  chega ao país para reforçar um time de perfumistas – antigos e novos – numa indústria que movimentou US$ 13,12 bilhões no varejo e é o maior mercado do mundo em consumo de fragrâncias.

A América Latina por sua vez consome per capita – US$ 21 em média em perfumes, quase 4 vezes a média mundial e a Symrise está representada na região em 8 países. É um mercado concentrado, em que os quatro grandes players são: Natura, O Boticário, Avone Belcorp – não necessariamente nesta ordem -, que detêm 51% do mercado.

A busca por inspiração para ele é contínua, está em todo lugar, o tempo todo, “como um músculo que deve ser mantido forte”. Maurice ficará no país por dois anos, trazendo toda a experiência de quem ganhou prêmios importantes em perfumaria pelo mundo e criou nada menos que 52 fragrâncias de sucesso no mundo todo.



1. Quando o senhor vive em um país diferente, sua percepção de cheiros muda?

Sim, muito. É uma constatação, não sou expert para saber exatamente o porquê. Devem existir explicações. Posso dar um exemplo: quando estava em Paris, nunca gostei da fragrância Pleasures. Quando mudei para NY, comecei a gostar. Certamente é um conjunto de elementos como temperatura, humidade local, geografia, clima, magnetismo, entre outros, que muda nossa percepção do olfato.


2. O senhor viveu nos Estados Unidos, por 12 anos, qual foi a sua percepção da perfumaria feminina e masculina de lá?

A perfumaria americana se degrada com os anos. Mesmo nas grandes marcas. Nos anos de pós-guerra, houve uma oportunidade de criar uma identidade única. Um exemplo que posso citar é Madame Lauder, que criou perfumes muito criativos, com muito valor agregado, perfumes poderosos, intensos, potentes. Não eram perfumes tão refinados, como os franceses. Depois de Madame Lauder, vieram Ralph Lauren e outros tantos.

Nos Estados Unidos, primeiro chegaram os produtos de beleza, e depois a perfumaria. Hoje a perfumaria americana, se transformou em uma perfumaria fácil, com pouca sofisticação. Tudo é muito frutal e direto. E estas fragrâncias obviamente já foram exportadas para o mundo, até para a França.

Mas eu acho mesmo que falta qualidade nos perfumes. De outro lado, há marcas de nicho mais interessantes e Tom Ford foi um destaque. Mas se pensarmos que a perfumaria de nicho é para ser exclusiva, com distribuição restrita, muitas marcas já estão expostas demais nos US.

A perfumaria americana foi trendsetter com perfumes como YouthDew e Giorgio, com a overdose de potência. E depois, na década de 90, fez uma mudança radical explorando o extremo do frescor com CkOne e Pleasures. É bem provável que esta perfumaria fácil e frutada também seja uma ruptura um dia, quando analisarmos os perfumes desta década.


3.  E agora no Brasil? O senhor conhece algo da perfumaria brasileira? O que ela lhe diz?

Ainda conheço muito pouco, porque acabei de chegar. Estou aqui para aprender. Há algumas referências que já me parecem mais claras. Na perfumaria masculina, o frescor é chave. O frescor é fougère, DHM, mais comercial. Já a perfumaria feminina é, ainda, mais complexa para mim. As mulheres têm gostos variados, está no seu DNA. O país é multiétnico e o clima influencia muito, de norte a sul. Os florais continuam a ser o pilar da perfumaria do mundo e também, acredito, no Brasil. E o que posso destacar é o amor das brasileiras pela lavanda, com águas frescas, splashes. Tecnicamente falando, o longlasting também é chave, é valor agregado. É necessário potência também. As pessoas querem se perfumar, investir num perfume que dure o dia todo.

4.  O senhor já tem uma perspectiva do que será esta temporada no Brasil? E o que o senhor percebe do país, do feeling around que possa lhe dar argumentos para perfumaria?

Este é um novo desafio para minha carreira. Em desafios sempre há riscos. Mas eu sinto que o risco aqui é muito pequeno. Eu continuo humilde, não sou o perfumista que sabe tudo. Quero e espero aprender muito aqui. O cenário e a cultura latina me fazem bem, eu me sinto à vontade e benvindo.

5. Porque a França é sempre uma referência em perfumaria, berço dos grandes perfumistas?

A França possui a tradição, um histórico na perfumaria. De fato, nos últimos anos o país perdeu um pouco de suas referências. A França já não é a única referência em moda, em vinhos, em perfumes.

O movimento de estilistas que criaram seus perfumes não nasceu na França. Mas foi lá que se desenvolveu e se criou uma base importante para perfumaria no país. O início do legado de designers que criavam perfumes foi no pós-guerra, depois de 1945. Podemos citar Dior, Carven, Saint Laurent, Paco Rabanne (que não é francês, mas fez fama no país).

Grasse também foi o berço de muitos perfumistas, por suas matérias-primas de excelente qualidade. E hoje, em qualquer centro de criação de qualquer país, ainda se fala muito em francês. A tradição da perfumaria segue nas mãos de muitos perfumistas franceses ao redor do mundo.

O ambiente favorece o gosto, a cultura e a tradição. E a França ainda guarda muita tradição neste métier.