1 – Quanto às categorias de nano partículas utilizadas em cosméticos, sabemos que nanopartículas são aplicáveis em cosmética para encapsular ingredientes ativos e obter sistemas de liberação de ativos gradual ou não. O que é a categoria não-lábeis ou biopersistentes? E ainda, quais seriam suas aplicações?

Segundo a regulamentação europeia, a nanotecnologia para cosméticos é dividida em duas categorias: Lábeis ou biodegradáveis e Insolúveis ou biopersistentes. Esta divisão foi dada em razão do risco de acúmulo no organismo por alguns tipos de nanopartículas, principalmente aquelas que são muito pequenas e também que não se biodegradam, podendo causar uma toxicidade a longo prazo pelo acúmulo e atingir órgãos ainda não definidos ou sob estudo.

As nanopartículas lábeis são estruturas de tamanho nanométrico (um nanômetro é um bilionésimo de metro ou 10-9) que quando aplicadas no corpo se dissolvem e se degradam a seus componentes originais que são biodegradáveis. Esta classe inclui os nanoencapsulados de maneira geral, como lipossomas, nanoesferas, nanocápsulas, nanoemulsões, nos quais temos ativos cosméticos dentro e são compostos por diferentes matérias primas. A Inventiva só trabalha com este tipo de partícula.

Já na segunda classe, as nanopartículas biopersistentes são aquelas que nosso organismo não possui capacidade de metabolização e normalmente são compostas por um único material como dióxido de titânio, oxido de zinco, ouro, prata e carbono (na forma de fulerenos, por exemplo).

Ativos nanoencapsulados, por exemplo, nanopartículas lipídicas de um óleo vegetal, apresentam uma série de vantagens quando aplicadas em cosméticos, como por exemplo, a maior estabilidade do ativo encapsulado; Facilidade de formulação. Exemplo: ativos com dificuldade de utilização na forma livre como o ácido lipóico, que tem odor desagradável e sua solubilização é extremamente difícil, no encapsulamento em uma partícula específica para ele, o ativo perde o cheiro desagradável e também a sua incorporação e utilização é muito melhor, não precisando solubilizar ele antes da utilização.
Outras vantagens são a compatibilidade com maior número de ativos que o produto não nanoencapsulado.; a liberação gradual, ou seja, a taxa de saída do ativo da estrutura é constante e lenta, o que leva a uma chegada homogênea do ativo em contato com a pele, reduzindo irritações e aumentando sua permeação.

Assim, os ativos nanoencapsulados são mais eficazes e mais seguros que os ativos convencionais. Na Inventiva temos o Retinol, por exemplo, que na forma livre degrada totalmente em 30 dias, já quando nanoencapsulado (NanoRetinol), ele permanece estável. Além disso, o retinol é citotóxico em diferentes concentrações, já encapsulado, ele não afeta as células, permitindo aumentar 10x a concentração. E, o NanoRetinol aplicado em células produziu 26% a mais de colágeno que o ativo não nano.

 
2 – Qual é a legislação e regulamentação corrente no Brasil em relação ao uso da nanotecnologia em cosméticos? Ela incentiva suas aplicações na área?

Não há legislação no Brasil. O que a Anvisa solicita é a comprovação do uso de nanotecnologia no produto quando descrito na rotulagem. Porém, esta solicitação não está regulamentada, é considerada a comprovação dos claims de rotulagem.

Como na Europa já temos legislação, isso torna o uso da nanotecnologia mais claro e destaca o que tem potencial de risco do que não tem. Apenas as nanoestruturas biopersistentes devem ter dossiê de segurança completo, INCI destacando o “nano” e pré registro.

 

3 – Que tipo de risco essa tecnologia poderia trazer? Ou, quais implicações de segurança a nanotecnologia traria para cosméticos? Qual a sua permeabilidade? Ela entrega o ativo em quais camadas?

O risco das nanopartículas biopersistentes é seu acúmulo no organismo. Caso venham a permear na pele, elas podem se acumular, migrar da pele para outros órgãos e causar toxicidade a longo prazo. Por conta disso, não recomendamos algumas nanoestruturas para uso em cosmético, como nanopartículas de ouro, prata e fulerenos.
Em relação aos filtros solares físicos, eles devem possuir estudos de segurança conforme solicitado pela regulamentação europeia. Imaginamos que o Brasil, por ser parte do NanoReg, grupo que estuda a regulamentação mundial de nano, venha a adotar medidas semelhantes à UE.

Em relação aos ativos biodegradáveis (a Inventiva só utiliza esses), eles devem ter estudos de segurança conforme regulamentação para produtos finais e não possuírem ingredientes tóxicos, ou que uma possível permeação na pele cause danos. De maneira geral, uma vez o ativo nano sendo bem estudado, ele é mais seguro que um cosmético convencional, devido à redução dos efeitos colaterais e do controle da permeação, pois é possível desenhar o sistema nano para que ele entregue o ativo na camada da pele desejada para aquele ativo em especifico.

 

4 – É uma tecnologia cara? Ela é necessariamente mais efetiva que as tecnologias comuns para a penetração dos ingredientes? Ela é acessível a empresas de cosméticos pequenas?

A tecnologia envolve a agregação de valor no processo, ou seja, o produto torna-se mais caro quando encapsulado, pois o processo é delicado e garantir sua qualidade, reprodutibilidade e pureza nanométrica são quesitos que envolvem processamento mais demorado e cuidadoso. Porém, o valor não é fora da realidade do que as empresas de cosméticos pagam hoje por ativos inovadores e de alta tecnologia. Existe ainda a possibilidade de estarmos trabalhando com ativos de alto valor, como é o caso do resveratrol. Uma vez nanoencapsulado, a dose necessária para sua ação antioxidante é reduzida e podemos utilizar menos ativo. Desta forma, utilizar nosso ativo NanoVitis RV é mais barato que utilizar resveratrol não nanoencapsulado. Ele apresenta 88% a mais de ação antioxidante que o convencional.

 

5 – Os ativos utilizados em nanotecnologia são normalmente mais caros ou mais específicos (ou efetivos) para que justifiquem o uso dessa tecnologia?

O uso da nanotecnologia pode ser justificado pelo aumento da eficácia, mas também pela alta facilidade de formulação e pela melhoria do sensorial do produto final. As nanopartículas da Inventiva melhoram muito o sensorial das bases e com isso pode-se trabalhar valor da fórmula reduzindo excipientes da base e incluindo ativos mais tecnológicos, de maior eficácia e segurança.

Inventivalab

6 – Como a nanotecnologia entrega benefícios aos cabelos, por exemplo? E para a pele?

Para o cabelo, as nanopartículas possuem a capacidade de penetrar nos fios danificados, preenchendo o “espaço” causado pelo dano químico e térmico aos fios, promovendo maior hidratação, brilho, maciez, força e conferindo vantagens como definição de forma, aumento da duração da cor e proteção dos fios aos processos químicos como escovas progressivas.

Para a pele, promove oclusão, reduzindo perda transepidermal de água e aumentando exponencialmente a hidratação da pele e de anexos como as unhas. Com isso, verificamos aumento de eficácia.

 
7 – Qual é o movimento da Inventiva no segmento de cosméticos? A empresa é fornecedora para grandes, médias e pequenas empresas ?

A Inventiva fornece para clientes de todos os portes. No mercado nacional, atendemos desde empresas de grande porte, a farmácias de manipulação. No mercado internacional, fornecemos para multinacionais e indústrias locais de países como Colômbia, China, Rússia, Reino Unido, dentre outros.

 

8– Para quais outros segmentos a empresa fornece sua tecnologia?

A Inventiva se especializou desde sua abertura em 2008 em desenvolver ativos de alta tecnologia para a área cosmética e é a área que seguimos atuando até hoje.

 

9 – Como tem sido o desenvolvimento da Inventiva como empresa?

A Inventiva foi criada em 2008 como um spin off acadêmico, projeto no qual levamos ao mercado a tecnologia que desenvolvíamos e ficava restrita a papers, teses e dissertações. Nesta época, a nanotecnologia era muito pouco difundida e nossa iniciativa foi inédita no país. Tivemos que instruir as pessoas a respeito da tecnologia para que pudessem valorizar, entender e ter vontade de consumi-la. Para isso investimos muito em pesquisas de mercado e, paralelamente, em testes dos ativos para comprovar sua segurança e aumento da eficácia, sempre comparando aos ativos na forma livre. Ainda hoje, 8 anos depois, muitas pessoas ainda desconhecem todo potencial que esta tecnologia apresenta e têm muitas dúvidas.

A Inventiva surgiu diretamente no mercado e estamos em nossa segunda sede, com planta industrial própria, laboratório de controle de qualidade e desenvolvimento completos, contando com técnicas como doseamento de ativos por cromatografia e permeação cutânea.

Durante esses 8 anos, fizemos uma série de cursos, viajamos o país todo, demos muitas palestras e divulgamos a tecnologia em diferentes eventos para demonstrar suas vantagens e torná-la mais acessível tanto a formuladores como ao público consumidor.

 
10 – Qual é a formação de vocês e como se tornaram empresárias? A empresa tem tecnologia própria?

Somos ambas farmacêuticas e nos conhecemos na Faculdade de Farmácia da UFRGS. Na época que estávamos concluindo nosso pós graduação, optamos em abrir a Inventiva e levar ao mercado um pouco da tecnologia que já estávamos trabalhando em pesquisa, já que não havia nenhuma empresa produtora no país. Na verdade, nossa tecnologia é única. Desenhamos nossos equipamentos e nossos produtos são inéditos no mundo. Além de toda a formação técnica em farmácia e anos de pesquisa em nanotecnologia, realizamos vários cursos de gestão da inovação, empreendedorismo, finanças e estamos sempre nos atualizando em busca de aprimorar a gestão de todos os setores da empresa.
Desde a abertura da empresa, investimos pesado em pesquisa, resultado que nos rendeu vários prêmios em congressos científicos e reconhecimento em eventos da área cosmética. Além dos prêmios e apresentações em Congressos como o IFSCC em Paris, recebemos incentivos governamentais como apoio do CNPq, Finep, Fapergs e Sebrae para realização de pesquisas. E expomos em diversos eventos do segmento, como FCE Cosmetique, In Cosmetics Brasil, In Cosmetics na Europa, em Paris, Hamburgo e Barcelona e no NY Suppliers´ Day.

 

11 – Vocês acreditam que num futuro próximo a nanotecnologia será comum para todo tipo de produto – cosmético ou não?

Sim. Acreditamos que a nanotecnologia irá permear todas as áreas de produção industrial e se tornar uma comodite, porém ainda há muito campo de pesquisa e trabalho para atingirmos a plenitude da tecnologia. A última fronteira desta tecnologia é a possibilidade de manipular átomos e moléculas para formar novas e inéditas estruturas, como um Lego de átomos, porém isso ainda só é possível virtualmente.