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Mercado de óleos essenciais está aquecido
Nacional - 25/11/2005

                                  

As exportações brasileiras de óleos essenciais e produtos derivados estão aquecidas. De janeiro a outubro, os embarques desses produtos renderam US$ 80 milhões, referentes a 60 toneladas de óleos, sendo 70% de óleos cítricos.

O aquecimento do mercado, de acordo com a pesquisadora Márcia Ortiz, do Centro de Pesquisa e Desenvolvimento de Recursos Genéticos Vegetais do Instituto Agronômico de Campinas - IAC, está diretamente relacionado ao crescimento mundial do setor de aromas e fragrâncias, em média, na faixa de 5% a 6% ao ano. "O Brasil tem condições de expandir sua participação nesse mercado, como fornecedor de óleos essenciais", afirma.

Na safra 2003/2004, a produção de óleo de laranja - subproduto da indústria de citros - alcançou 33 mil toneladas. O Brasil tornou-se o maior exportador de óleo essencial de laranja, apoiado na força da indústria brasileira de sucos cítricos. Outros destaques na pauta de exportação brasileira de óleos essenciais, de acordo com Marcia, são os óleos de eucalipto, pau-rosa, palma-rosa, citronela, limão, bergamota e vetiver. "No pau-rosa, já avançamos bastante com o manejo sustentado, na Região Amazônica, para evitar a extinção da planta", diz.

O fator determinante é que todas as grandes indústrias multinacionais do setor de aromas e fragrâncias estão no País.

"Elas trabalham em parceria com as instituições, apoiando pesquisas, em busca de novos óleos a partir da biodiversidade do país", diz. "Há também as empresas nacionais que já utilizam óleos essenciais e óleos de resinas de plantas nativas brasileiras, como piprioca, andiroba e copaíba." Bons exemplos são a Cognis, Beraca, a Uniqema, e a Croda.

A Cognis existe desde 2002 e nasceu de um desmembramento da Henkel (há 50 anos no Brasil), cujo projeto de prospecção de ingredientes amazônicos é de 1999. A Cognis não possui fábrica de processamento de óleos, mas trata o material que vem dos ribeirinhos.

 Em busca de parcerias, a Cognis encontrou a Natura e focou no desenvolvimento de ingredientes amazônicos para o setor de cosméticos, retrabalhando o óleo de andiroba e de castanha-do-brasil, e a manteiga de cupuaçu, vindos do Amapá, do Amazonas e da Rondônia.

"Não queremos criar dependência nem contrato de exclusividade com os produtores. Nós acertamos no início da safra o quanto vamos comprar", diz Henrique Sales responsável pelo desenvolvimento do setor na Cognis, que tem fábrica em Jacareí (SP).

A Croda do Brasil produz anualmente mais de 100 toneladas de ativos e aditivos derivados das espécies florestais. Implantou no final de 2001 a planta industrial em Manaus, onde é feito o processamento da matéria-prima retirada de sementes, amêndoas e polpas que vêm do Acre, Amapá, Amazonas, Pará e Maranhão. O desenvovimento de novos produtos é feito no laboratório de Campinas, onde a empresa está há 30 anos.

“O início das atividades na área da biodiversidade e com espécies nacionais aconteceu em 1993 através de pesquisas com a manteiga de cupuaçu, extraída da semente do fruto", conta Vânia Pacchioni, gerente de negócios da linha Crodamazon.

O óleo de cupuaçu é o principal produto da Crodamazon, que também vende babaçu, castanha-do-brasil, buriti, andiroba e murumuru. Com 100 clientes no país e exportações para 20 países, estes produtos equivalem a menos de 5% das vendas de US$ 25 milhões anuais da Croda Brasil, que também opera nos mercados de cuidados pessoais e de farmácia.


A Beraca Sabará, empresa familiar, sediada em Santa Bárbara d´Oeste, no interior de São Paulo obteve sucesso quando começou a comercializar insumos naturais para a indústria de cosméticos como representante do óleo de jojoba da mexicana Desert King em 1992. Em 2001 a empresa adquiriu a Brasmazon, em Belém, que era a única fábrica amazônica a produzir óleos vegetais para o setor à época, a pequena empresa. Hoje fornece para as marcas estrangeiras Yves-Rocher, Atkinsons, Schwarzkopf, a rede de spas Virgin Vie, a varejista Boots e a rede de supermercadosTesco.
Com a fábrica instalada estrategicamente no Pará, a Beraca Sabará já investiu cerca de US$ 1,7 milhão em inovação tecnológica e mais US$ 1,5 milhão para divulgar seus produtos.

Chegou, em quatro anos, à posição de um dos maiores fabricantes e distribuidores de ativos e especialidades brasileiras. Concorre com duas multinacionais do ramo de insumos químicos atuando no país - a Cognis, da Alemanha, e a inglesa Croda. 

Mas o grupo entrou no jogo para valer quando o tema do desenvolvimento sustentável chegou às prateleiras do consumidor. "A refinaria de Belém reformulada pôde atender a demanda por ingredientes com padrão de qualidade internacional no momento em que a linha Ekos da Natura abria mercados", lembra Ulisses Sabará, que junto com o irmão Marco é um dos proprietários da empresa, que comanda a Divisão de Especialidades Amazônicas.

A fragrância da priprioca ganhou o mundo como o aroma de maior sucesso de mídia e público e foi em 2003 que a Beraca estabeleceu exclusividade no fornecimento da essência desta raiz para a Natura. A priprioca provém de três comunidades nas proximidades de Belém, que exploram áreas nativas e plantadas. Esse óleo é usado para fabricar a fragrância da Natura com know-how da suíça Givaudan.

A divisão de cosmética e especialidades florestais do grupo já responde por 24% do faturamento bruto da empresa que chegou aos US$ 30 milhões em 2004. "Vendemos estes novos ingredientes amazônicos para 17 países, França e Alemanha entre eles. Recentemente fechamos contrato com o Japão, Polônia, Austrália e China", diz Ulisses. As exportações são 18% do faturamento da divisão de cosmética natural da Beraca. A empresa investiu US$ 3 milhões para adequar-se às normas de certificação florestal e implantar um processo de produção segundo requisitos internacionais. As fábricas de Belém e de Santa Bárbara d´Oeste possuem o selo FSC (Forest Stewardship Council ou Conselho de Manejo Florestal), concedido pelo programa internacional Smart Wood - Rain Florest Alliance

No próximo mês de dezembro, a Beraca Sabará receberá o selo da Ecocert Brasil, concedido para produtos cosméticos de origem orgânica nacional. A avaliação da certificadora está sendo feita nas comunidades de Igarapé-Miri, Tomé Açu e Ilha-de-Marajó. O selo orgânico é conferido aos produtos após comprovação do processo correto, da origem até o destino. As regras para a concessão desse selo estão sendo harmonizadas pelo padrão BDIH (a associação alemã das indústrias de produtos de higiene e cosméticos). Esse selo orgânico atesta, entre outras coisas, que não foram feitos testes usando animais, e que não há efeitos maléficos dos ingredientes sobre a pele.

A biodiversidade brasileira representa um nicho de mercado importante no segmento de óleos essenciais, a partir da demanda de fragrâncias. Nos últimos dez anos, o IAC vem pesquisando plantas nativas, como novas opções ao produtor.

“Quando identificamos uma planta interessante para o setor privado, a preocupação, dentre outras, é estudar como a planta pode ser cultivada, para preservação da espécie." Há dez anos, o IAC está trabalhando com espécies nativas da Mata Atlântica e do Norte do País. "Em 2007, vamos divulgar as primeiras informações sobre esse banco", prevê Marcia.

A cadeia de óleos essenciais, que envolve cultivo da espécie, pesquisa, extração, preparo de derivados, indústrias e consumidor está desarticulada. Márcia acrescenta que as discussões sobre a definição de políticas públicas e privadas para articular essa cadeia foi um dos focos do terceiro simpósio sobre óleos essenciais, realizado no começo de novembro, em Campinas.

Fonte: O Estado de São Paulo- 23/11 e Valor Econômico - 22/11

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