Pesquisa da USP mostra que luz visível também é capaz de gerar as lesões pré-mutagênicas de DNA de forma semelhante à luz UVA

 

No Brasil, temos mais de um dispositivo móvel por habitante – de smartphones a tablets ou notebooks. Passamos aproximadamente 5 horas por dia conectados na internet, ou seja, dois meses e meio do ano olhando para as telas de celulares e computadores. E esse contexto de amplo e intensivo uso de dispositivos eletrônicos alerta especialistas de diversas áreas para os possíveis danos que a mudança comportamental do século XXI possa trazer à população.

Há pesquisadores estudando o impacto do uso de smartphones na postura corporal, no aumento do sedentarismo, nas relações intrapessoais e também nos efeitos que a luz emitida pelas telas podem causar à pele ou à retina.

Para a área de proteção solar, as pesquisas sobre a luz emitida pelas telas – que integram a parte visível do espectro de radiação, chamada também de luz visível – são fundamentais neste novo contexto tecnológico, e apontam para um novo cuidado que precisamos tomar ao nos expor (ou não) ao sol.


Luz visível

Luis Julian, Gerente Técnico Regional da DSM Personal Care LATAM, explica que a luz visível é a parte da radiação solar que chega à superfície da Terra e que conseguimos enxergar: “De todo o espectro de radiação emitido pelo sol, existem radiações que percebemos e que interagimos de diferentes formas, como é o caso da luz visível. O espectro da luz visível compreende a parte da radiação solar que nós percebemos, como as cores”.
Gráfico que apresenta o espectro de radiação solar e o comprimento de onda.

A radiação chega a superfície terrestre e ocorre em diferentes níveis de intensidade. Ela é calculada pelo comprimento da onda – quanto menor o comprimento, maior a intensidade da radiação. Assim, os níveis de intensidade dos raios solares seguem a escala UVB > UVA > Luz visível, sendo que dentro do espectro da luz visível diferentes cores possuem diferentes intensidades, sendo a luz azul a mais energética delas.

“A luz azul, a qual nos referimos quando falamos em proteção solar, faz parte do espectro de luz visível. É a cor mais energética e que tem maior potencial para gerar radicais livres na pele, que, assim como a radiação UVA, levam ao fotoenvelhecimento”, explica Julian.

Essa luz azul é aquela emitida pelos aparelhos eletrônicos: “As telas dos dispositivos são compostas por LEDs de três cores: azul, verde e vermelho. A combinação dessas cores gera as demais que percebemos. Para melhorar a clareza e luminosidade da tela, a cor mais emitida pelo equipamento é azul”, descreve o Gerente Técnico da DSM.

Atualmente, as pesquisas em luz visível que estudam os impactos desse espectro na pele apresentam resultados que indicam a necessidade de um filtro específico para a proteção contra a luz visível solar.

 

Atuação dos raios solares sobre a pele

Para compreender os efeitos da luz visível, é necessário examinar antes o mecanismo de dano pelos diversos comprimentos da luz solar. Conforme dito anteriormente, o raio UVB possui um menor comprimento de onda (290-320 nm) e por isso seu efeito é diferente quando comparado ao UVA (321-400 nm) e luz visível (400-700 nm).

O que significa que o UVB, mais energético, é absorvido diretamente pelas moléculas de DNA da nossa pele, podendo induzir processos fotoquímicos que distorçam a estrutura do DNA e afetem a sua função. “Entretanto, a pele possui uma proteção natural contra o UVB: a melanina e também a vermelhidão. Inclusive, ficar vermelho é consequência de uma reação inflamatória aguda, um sinal para a pessoa sair do sol”, explica o professor da Universidade de São Paulo, Maurício Baptista.

O UVA e a luz visível, por sua vez, não geram a reação de vermelhidão, mas penetram a derme, “onde são capazes de gerar radicais livres que destroem estruturas celulares e a matriz extracelular (que dá sustentação à pele), causando o fotoenvelhecimento”, diz Julian.

Para Maurício, “A principal descoberta [da pesquisa] é que o UVA e a luz visível atuam de forma semelhante ao interagir com os tecidos biológicos. A consequência dessas reações é que elas podem causar a fotooxidação do DNA, formando lesões de DNA pré-mutagênicas, que podem se acumular e causar uma transformação maligna. Nosso trabalho mostrou que a luz visível também é capaz de gerar as lesões pré-mutagênicas de DNA de forma semelhante à luz UVA. Como há muito mais luz visível que atinge a pele do que UVA, o efeito da luz visível adiciona de maneira sinergística um dano muito maior a pele.”


Luz Visível Solar e seus danos

Em uma pesquisa sobre os efeitos da luz visível, o professor Maurício Baptista e a equipe do Centro de Pesquisa em Processos Redox em Biomedicina (Redoxoma), um Centro de Pesquisa, Inovação e Difusão (CEPID) da FAPESP, descobriram que essa radiação pode estar relacionada com o aumento dos casos de câncer de pele, isso porque, atualmente, não há uma regulamentação para os filtros que protegem contra esse tipo de luz.

Segundo os resultados do estudo, pigmentos naturais da pele, como a melanina e a lipofuscina, atuam como fotossensibilizadores gerando oxigênio singlete (molécula extremamente reativa com dois elétrons emparelhados que podem estar num mesmo orbital ou em orbitais diferentes) e causando lesões oxidativas, que podem levar a mutagênese se não forem reparadas.

“É evidente que o efeito da luz visível amplifica os efeitos indesejáveis da radiação solar e exige urgentemente o desenvolvimento de novas estratégias de proteção. Ao mesmo tempo, diz o professor, as agências reguladoras devem reconsiderar suas atuais políticas de proteção solar, a fim de levar em consideração a necessidade de proteção contra uma ampla gama espectral de luz solar”.


Proteção contra a luz visível

Compreender a ação da luz visível na pele é primordial para a proteção, mas não se deve parar por aí. “A situação atual da proteção solar é ineficiente pois sugere que as pessoas estão seguras se passarem o filtro solar para enfrentar um dia de superexposição ao sol, mas não é bem assim”, conta Maurício. Segundo o professor, é necessário ampliar o espectro de proteção solar para além do UVA e UVB exigido pela legislação atual.

Para o gerente técnico da DSM, tanto a preocupação da Indústria quanto a dos órgãos regulamentadores estão indicando a necessidade de maior proteção: “o nível de proteção oferecido tem sido cada vez melhor, não apenas pelo aumento do FPS, mas também pela qualidade do espectro de ação. E isso vem mudando as características das formulações. No passado, não tínhamos uma regulamentação que exigia uma quantidade mínima de proteção contra UVA, as formulações ofereciam basicamente proteção contra queimadura, diz Luis Julian”, e alerta: “Mesmo usando o protetor solar, as pessoas não o aplicam corretamente, usam um FPS baixo demais, ou se expõem além do tempo que o protetor oferece de proteção. Tudo isso pode contribuir com aumento dos casos de câncer e danos à pele”.

Por essa razão a conscientização é um caminho-chave na proteção solar. Para Endrigo Ramos, gerente regional de marketing da DSM Personal Care LATAM, as indústrias químicas são fundamentais nesse processo: “o de conscientização científica respaldada por pesquisas, estudos, desenvolvimentos e resultados. Especificamente em relação à luz visível, a DSM leva e vai continuar levando informações para o mercado e mostrar como estudos têm evoluído”.

Atualmente, há opções de filtros solares que protegem contra a luz visível e que podem ser incluídos nas formulações de protetor solar. “Ainda como matérias primas, temos uma série de vitaminas que complementam os filtros UV, como as vitaminas C e E que são antioxidantes e que combatem radicais livres. A Niacinamida PC também é capaz de evitar danos causados pelo UVA e luz azul. Há um outro ativo, o PEPHA®-AGE, extraído de algas que tem a capacidade de preparar a pele para combater, naturalmente, os danos causados pela radiação solar, incluindo a luz azul emitida pelas telas de equipamentos eletrônicos”, explica o gerente técnico Luis Julian.


proteção e bem-estar

A conscientização sobre os danos causados pela exposição solar é muito importante para proteger contra o fotoenvelhecimento e o câncer de pele. Mas o sol também não pode ser visto como um inimigo.

“A exposição solar é importante para a síntese da vitamina D”, diz Luis Julian. E um dos meios de atingir esse benefício é através da prática de atividades ao ar livre – fora do ambiente de trabalho e longe das telas de celulares e computadores. “De todo o tempo que investimos utilizando os dispositivos eletrônicos, destinar uma parte para se expor ao sol pode, na verdade, trazer uma série de benefícios.”

Para o professor Maurício, “a rotina ideal para um indivíduo que não tem hipersensibilidade ao sol é a receita antiga de exposição por um curto período de tempo, sem proteção externa. Ao fazê-lo, o indivíduo obtém benefícios, como, por exemplo, a ativação da vitamina D. Isso tudo sem sofrer os riscos de exposição prolongada, mesmo com o uso de protetores solares atuais.”

E é neste quesito de exposição ao sol que os aparelhos eletrônicos e o novo modo de vida das pessoas pode ser muito prejudicial: apesar do relatório da Mintel “Shedding Light On Suncare Trends & Millennials” apontar para um comportamento de maior cuidado com proteção solar por parte dos millennials, a falta de exposição solar causada pelas várias horas que passamos em ambientes fechados, trabalhando sentados em frente aos computadores, afetam não só a produção de vitamina D como também acabam criando uma série de problemas relacionados ao sedentarismo.

Por isso, compreender os riscos da exposição solar (e da falta dela), e saber quais são as opções de proteção é um passo fundamental para uma melhor qualidade de vida. “A beleza está em se cuidar e se proteger para que possamos viver intensamente”, observa Endrigo.

Fonte: DSM