Em 2006, de acordo com dados da Abihpec – Associação Brasileira da Indústria de Higiene, Perfumaria e Cosméticos – o segmento faturou R$ 17,3 bilhões ou US$ 8.1 bilhões.

Pelos cálculos do Instituto Brasileiro de Ética Concorrencial (Etco), o país deixa de arrecadar anualmente cerca de R$ 30 bilhões por causa dos produtos falsificados.

O setor cosmético brasileiro não fica de fora do problema. Perfumes importados falsificados entram no país, principalmente via Paraguai e Bolívia e até mesmo marcas nacionais como O Boticário, Natura, Anantha e até a marca de contratipos Fator 5  também tem suas fragrâncias falsificadas vendidas abertamente nas ruas de comércio popular do país.

No momento em que empresas, governo, através do Conselho Nacional de Combate à Pirataria e Delitos contra a Propriedade Intelectual (CNCP), da Secretaria da Receita Federal e entidades representativas do setor produtivo, como a Amcham, que realizou na semana passada o II Fórum de Educadores no Combate à Pirataria, intensificam a campanha pelo fim da pirataria e em favor da ética concorrencial, o campo de análise para a identificação de produtos falsificados se amplia. 

Entre estas medidas, a Adipec – Associação dos Distribuidores e Importadores de Perfumes, Cosméticos e Similares – implantou há alguns anos o Selo de Garantia de Procedência que lacra embalagens de perfumes importados. Ele é destinado a selar os produtos legalmente importados, ação que os diferencia dos produtos ilegais e contrafeitos. Assim, além de proteger os interesses dos consumidores, o Selo protege também aqueles estabelecimentos que respeitam as normas vigentes no País. Algumas empresas, como a Guerlain que mantém controle rigoroso do volume de produtos que envia ao país: “É a melhor maneira de controlar e também é fazer compras vendo de onde vem este produto. Há o selo contras pirataria da Adipec, temos o nosso selo também, mas na verdade eles são passíveis de cópia. Temos um sistema invisível, que precisa de uma máquina muito sofisticada para ler. É a única maneira. Mas não há muita pirataria com os produtos Guerlain”, disse Etienne Kusmireck, Gerente de vendas regionais da América e Caribe ao cosméticos br no ano passado, em sua visita à Beauty Week, evento dedicado à perfumes e cosméticos importados.

Mesmo assim, para os produtos que estão no mercado, nacionais ou internacionais e que consumidor ou lojista tenham dúvidas quanto a sua origem, os pesquisadores do Instituto de Química (IQ) da Unicamp, mais especificamente do Laboratório Thomson de Espectrometria de Massas, estabeleceram no ano passado uma técnica inovadora para verificar a originalidade de perfumes. A partir dela, os especialistas precisam de apenas um minuto para verificar com precisão se uma determinada amostra refere-se ou não a uma mercadoria pirateada.

                        

“Perfumes que não são originais trazem em sua composição traços do polímero [plástico] usado na embalagem, o que denuncia o emprego de material de baixa qualidade pelo fabricante”, diz o cientista Rodrigo  Catharino.

O pesquisador destaca que esse tipo de análise é importante tanto do ponto de vista do combate à pirataria, quanto da preservação da saúde pública.
Além de agregar valor aos perfumes originais, a análise deve ajudar a inibir a venda de mercadorias adulteradas, prática que prejudica a arrecadação de impostos e a geração de empregos.

O cientista imagina que é possível que substâncias usadas para falsificar determinadas marcas possam causar algum tipo de reação adversa no consumidor, como alergias. “Os dois problemas são muito sérios e precisam ser devidamente enfrentados. Nós estamos colocando essa técnica à disposição dos interessados”, afirma Rodrigo.

Para ele o mais indicado seria procurar os laboratórios de análise credenciados, como o Inmetro,  Fiocruz e Lara. O Laboratório Thonsom é um laboratório que desenvolve a técnica, que na verdade é uma metodologia, ainda sem nome específico.

Metodologia

Para identificar se um produto foi ou não adulterado, os pesquisadores tomam como referência uma amostra padrão em que são checados o selo da embalagem e o certificado de importação. Em seguida, porções desses produtos foram dissolvidas em uma mistura de álcool e água e posteriormente injetadas no espectrômetro de massas, equipamento que promove análises químicas.

Os pesquisadores reproduziram o mesmo processo com cinco marcas de perfumes análogas, mas adquiridas de camelôs e lojas de mercadorias populares da rua 25 de Março, em São Paulo, apontada como um reduto de produtos piratas.

Ao confrontarem os gráficos gerados pelas análises dos dois grupos, os especialistas constataram que as amostras retiradas dos perfumes originais apresentavam características totalmente diferentes das demais.

Em relação à metodologia, o pesquisador destaca que ela difere das abordagens convencionais por aplicar a técnica da eletronspray, que tem a capacidade de identificar os compostos polares presentes na substância analisada. Esses compostos, diz Rodrigo Catharino, conferem ao produto uma característica única, como se fosse sua “impressão digital”. “Por intermédio dessa técnica, que é bastante versátil, nós conseguimos obter resultados extremamente rápidos e confiáveis”, acrescenta.

Entretanto, não existe como testar os produtos na própria loja. O consumidor ou distribuidor que desconfiar de um produto adulterado deve levar para um desses laboratórios.

‘Ainda não ocorreu a transferência de tecnologia do Laboratório Thonsom”, diz Rodrigo. Esses órgãos reguladores ainda não tem essa técnica, só as clássicas, que ainda não são confiáveis. Essa técnica desenvolvida tem 90% de chances de dizer que o produto foi adulterado”, afirma. De acordo com ele, a técnica permite ainda identificar a certificação de perfumes inclusive por região no mundo.  “O próximo passo da pesquisa será investigar quais são os componentes presentes nos produtos fraudados”, acrescenta

“Os interessados seriam os prestadores de serviço. Quando eles quiserem trocar de tecnologia, estamos à disposição, tanto para o treinamento do pessoal quanto a montagem da técnica”, propõe o pesquisador.

De acordo com ele, o Laboratório Thonsom está desenvolvendo a mesma tecnologia para produtos de limpeza. Hoje temos muitos problemas que podem causar intoxicação e até levar à morte.

Através dessa técnica, mesmo para perfumes inspirados numa fragrância, os contratipos, existe a possível de detectar o insumo básico para que o consumidor saiba se a fragrância realmente respeita sua origem. 
Nos testes realizados pelo Laboratório, estes, apresentaram características que as aproximam mais dos perfumes originais do que dos pirateados. “A certificação também é interessante também para esse segmento, já que asseguraria a qualidade dos seus produtos”, diz o pesquisador Rodrigo Catharino.

                              

II Fórum de Educadores no Combate à Pirataria

Em outra frente, a secretária executiva do Conselho Nacional de Combate à Pirataria (CNCP), Ana Lúcia Soares disse no II Fórum de Educadores no Combate à Pirataria que “a indústria poderia investir mais nisto, mantendo sites oficiais e também disponibilizando produtos com preços mais populares”.

Para ela, a disponibilizarão no mercado de produtos com preços menores incentiva a população a comprar os legítimos. “Estamos resolvendo o problema da oferta, as apreensões vão continuar e serão intensificadas, o País precisa agora de medidas para conter a demanda, ou seja, atuar junto aos consumidores”, disse. De acordo com a secretária, são necessárias iniciativas criativas para reduzir diferenças de preços entre originais e piratas.

Márcio Vaz, secretário executivo do Comitê Intersecretarial de Combate à Pirataria do Estado de São Paulo, ressaltou no Fórum que a população precisa saber que a pirataria financia o crime organizado. “Por trás da pirataria, há lavagem de dinheiro e o narcotráfico”, comentou. Márcio Vaz ressaltou ainda que os ambulantes são vítimas porque além de se manterem na informalidade, sofrem outras conseqüências maléficas. Eles contribuem para a diminuição do recolhimento de impostos “E eles pertencem à classe social que mais necessita dos serviços públicos, seja hospitais ou escolas para os filhos”, conclui.