imagem: WYSS Institute

Grupo Boticário, controlador das marcas O Boticário; Eudora; quem disse, berenice? e The Beauty Box, dá mais um passo na busca por testes alternativos para a avaliação de sensibilização da pele na indústria cosmética, tema em constante estudo entre a comunidade científica mundial. O novo estudo organs on a chip,  tecnologia que simula um órgão humano em um chip terá testes funcionais em laboratório ainda este ano e para o próximo ano, 2017, o Grupo deverá lançar os primeiros produtos testados a partir de órgãos simulados em chip.

A tecnologia organs on a chip é uma evolução que vem suprir a lacuna ainda existente nos métodos alternativos ao uso de animais, cujas respostas obtidas, sabe-se, não são fiéis, por se tratar de organismo não humano.  Diante dos problemas éticos e das limitações da experimentação animal, surgiram posteriormente os métodos in vitro, utilizando células humanas e modelos tridimensionais que simulam a arquitetura dos tecidos.

“Neste caso, a limitação é oposta a do uso de animais, pois os tecidos são avaliados isoladamente, de forma não sistêmica. A tecnologia organs on a chip tem o objetivo de unir os dois métodos, conectando diferentes tecidos humanos desenvolvidos em laboratório,  fazendo com que haja uma interação entre eles, simulando o que acontece no organismo vivo, reproduzindo a fisiologia natural. Ou seja, teremos tecidos reconstruídos in vitro dentro de um chip que, por meio de canais, se conectam com diferentes organoides (organismos reconstruídos em laboratório) através de fluídos que simulam o sangue. Esse processo tem por objetivo identificar alergias que possam ser causadas por produtos cosméticos aplicados à pele, ” explica o gerente de pesquisa biomolecular do Grupo Boticário, Márcio Lorencini, ao cosméticos br.

A tecnologia organs on a chip é uma aposta em estudo na indústria farmacêutica em outros países. No Brasil, o Grupo Boticário é pioneiro no desenvolvimento deste método para teste em produtos cosméticos. A tecnologia utilizada para o desenvolvimento do chip é da empresa alemã TissUse e o desenvolvimento no Brasil está sendo feito em parceria com o LNBio  – Laboratório Nacional de Biociências -, laboratório ligado ao CNPEM  -Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais – e com apoio do MCTIC  – Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações – e da RENAMA Rede Nacional de Métodos Alternativos ao Uso de Animais.

“Estamos em fase de transferência da tecnologia da TissUse para o Brasil, na sede no LNBio, em Campinas, onde o Grupo Boticário mantém um espaço para os primeiros testes funcionais, com o objetivo de desenvolver chips que conectem quatro ou mais tecidos. A previsão de chegada dos equipamentos necessários para que isso aconteça é para setembro deste ano,” diz Márcio Loncerini.

Ele conta que os pesquisadores da empresa fizeram treinamento na Alemanha em 2015 e realizaram prova conceito utilizando pele e fígado.”Nestes testes foi possível perceber resultados concretos. O desafio para o nosso projeto será conectar a pele ao sistema imune de forma a suprir o gap nas avaliações de sensibilização.”

No projeto do Grupo Boticário e suas marcas, essa tecnologia será utilizada em produtos cosméticos e matérias-primas da indústria cosmética para proporcionar ainda mais segurança aos consumidores. O pesquisador destaca que esse sistema, que atualmente é financiado nos EUA e na Europa por grandes industrias farmacêuticas, mostra também resultados promissores em testes de quimioterápicos.

Eduardo Pagani, gerente de desenvolvimento de fármacos e cosméticos do LNBio,  afirma que essa tecnologia tem potencial para substituir com vantagens o uso de animais. “Os chips permitem que os organóides  sejam permeados por um fluído similar à circulação sanguínea. Essa microcirculação simula o que acontece nos organismos vivos, aumentando significativamente o poder preditivo dos testes. É um avanço tecnológico que vai beneficiar os testes exigidos para o desenvolvimento de novos produtos e que ao mesmo tempo, irá atender aos anseios da sociedade pela substituição do uso de animais de laboratório”, aponta. Para Lorencini este é um bom exemplo de parceria entre academia e indústria com foco no desenvolvimento de novas tecnologias para o desenvolvimento econômico e científico do país.

O Grupo Boticário adota métodos in vitro desde 2000, eliminando testes em animais. Em 2015, a empresa desenvolveu pele humana em laboratório, a Pele 3D no  Centro de Pesquisa e Desenvolvimento do Grupo, localizado na planta de São José dos Pinhais (PR).  O material é utilizado para testes de matérias-primas e produtos acabados. Para elaborar a Pele 3D, são utilizadas células isoladas a partir de tecido descartado de cirurgias plásticas, nos casos em que há o consentimento do doador para este fim e aprovação de Comitê de Ética e Pesquisa da instituição. Em laboratório, a pele é formada, célula a célula, camada por camada, tal como a pele humana. A tecnologia é reconhecida pelo Concea – Conselho Nacional de Controle de Experimentação Animal  e pela Anvisa – Agência Nacional de Vigilância Sanitária.

“Essa tecnologia se mostrou um método seguro e eficaz, e continuará a ser utilizada. A tecnologia organs on a chip porém, é mais uma evolução em métodos alternativos que atende diferentes necessidades de testes para a indústria cosmética.” ressalta Márcio Lorencini.