Sabonete de café? Esfoliante de semente de uva? Óleo essencial a partir da casca de bergamota? E xampu de jenipapo? O mercado cosmético vai à lavoura e a lavoura está encontrando no segmento cosmético uma opção rentável, que diversifica a utilização das plantações, tradicionalmente reservadas a alimentos, um negócio que prospera à luz da certificação ambiental.

As propriedades antioxidantes da uva, do café e da erva mate, os resíduos de sementes utilizadas como esfoliantes, ou as propriedades aromatizantes e cicatrizantes da mexerica são hoje insumos que empresas de perfil sustentável buscam em plantações que passaram a utilizar o manejo agroflorestal, sem fertilizantes e defensivos químicos, com certificação ambiental, agregando valor aos seus produtos um conceito cada vez mais apreciado por consumidores no mundo todo.

“As pessoas valorizam ainda mais produtos que trazem em seu DNA a sustentabilidade” — atesta Edimilson Miguel, gerente de marketing da Regional Sul da Natura, que encontrou na Ervateira Putinguense, erva-mate certificada pelo FSC Brasil (Forest Stewardship Council) – propriedade e indústria – pelo manejo sustentável.

                       
                 Eduardo Guadagnin, da Ervateira Putinguense 
                            
referência em cultivo sustentável

A Ervateira fica no interior de Putinga, no Vale do Taquari e recebeu a certificação em 2003, depois de um período de adequação às normas do FSC. “A Natura nos encontrou e ficou esperando até que obtivéssemos a certificação”, diz o produtor Eduardo Guadagnin, que cultiva erva-mate ao lado da mata nativa desde 1995 quando fundou a Ervateira. Ele hoje divide a produção da erva mate em processos distintos: um para as plantas que serão destinadas ao mate do chimarrão e outro para o que se transformará na linha de cosméticos masculina Natura Ekos MateVerde.                          

“Para a empresa são utilizadas só as folhas, de secagem mais branda, a 60°, sem contato direto com o fogo. Assim são preservadas as propriedades revigorantes, refrescantes, purificantes e energizantes da planta. A partir daí as folhas já são encaminhadas para a empresa, onde são tratadas e os seus princípios extraídos,” explica Guadagnin.

“Nos tornarmos referência em cultivo sustentável, agregamos valor a nossa produção”, ressalta o produtor. Ao destinar parte da produção aos laboratórios da Natura, em São Paulo, o produtor dobrou o valor recebido pelo quilo do produto – o quilo certificado para chimarrão é vendido hoje a R$ 12,50, a folha da erva pura é negociada por mais de R$ 30. “Estipulamos o fornecimento de cerca de 3 toneladas ano e todo ano se faz um calendário para saber a quantidade precisa que a empresa vai utilizar,” conta. 

                           
                          Cerca de 3 toneladas/ano de erva mate
                                           para linha masculina Ekos

                               

Atualmente, quase 50 propriedades fornecem erva-mate para a Ervateira Putinguense que buscam se ajustar ao sistema de manejo para se adequar às exigências ambientais. A principal função da certificação é garantir ao consumidor que o processo de manejo dos recursos florestais está sendo cumprido e a floresta conservada.

“Embora a repartição de benefícios constitua importante veículo para a promoção de benefícios socioambientais, acreditamos que um dos principais vetores para o desenvolvimento sustentável dos nossos parceiros deve ser o fornecimento de insumos para a produção, que remunera a atividade produtiva, favorece a organização social, gera valor para economia local e valoriza o trabalho,” diz Edimilson Miguel, da Natura.

Cerca de cem quilos da folha rendem três quilos de extrato aromático usados na fabricação do sabonete, xampu, desodorante e perfume da linha. A folha é rica em taninos, vitaminas e cafeína. Tem propriedades estimulantes, digestivas e antioxidantes.                                       
       
Ao concentrar 75% da produção em cosméticos à base de uva, erva-mate e pêssego a Essência Di Fiori também percebeu as oportunidades desse mercado. “Para crescermos nesse mercado precisávamos de uma estratégia diferenciada. Apostamos nos turismo regional e em seus produtos típicos” explica Eder Moretto, diretor da empresa. Com faturamento de R$ 3 milhões no ano passado, a empresa de Bento Gonçalves começou a ganhar espaço quando apostou no potencial desses produtos.

                                     
                                Essencia di Fiori estratégia 
                              baseada em  produtos regionais


“A Serra gaucha tem fruticultura forte e os produtos são vendidos nessas regiões turísticas do Sul e levados para outras regiões do país, com a divulgação boca a boca, acredita”.

Com tradição no cultivo de cafés a Família Araujo é a fornecedora da principal matéria-prima da Kapeh. A Fazenda Rancho Fundo, em Três Pontas, Sul de Minas, recebeu o selo de certificação internacional, pela UTZ Certified, que assegura anualmente uma produção rastreada e sustentável, com proteção ao meio ambiente e respeito ao ser humano. 

                  
                        Kapeh – perfume de flor do café

Através desse processo de rastreabilidade é possível saber informações sobre a origem de todo o café usado nos produtos cosméticos da Kapeh, tais como: variedade, safra, data de colheita, qualidade da bebida, produtos utilizados no cultivo, colaboradores envolvidos na produção, enfim, todas os dados pertinentes à cadeia produtiva. 

                      
                        sementes de café como esfoliante

“O café é pouquíssimo explorado na indústria cosmética e faz muito bem para a pele, já que é rico em substâncias antioxidantes, que combatem o envelhecimento e tem fragrância agradável”, explica Vanessa Vilela Araújo, fundadora da marca, que comercializa seus produtos em lojas exclusivas e também em cafeterias. A Kapeh exporta hoje para Portugal e Holanda, além de fornecer seus produtos para dezesseis estados brasileiros.                    

Na serra gaúcha, maior região produtora de uvas do país, também está a Vinotage a mais representativa indústria de produtos de beleza à base de vinoterapia.

Ao aproveitar os resíduos da vinificação, especialmente as sementes, empresas gaúchas produzem cosméticos para o dia a dia e para os tratamentos de beleza em spas e clínicas.

                               
                               Vinotage – Antes resíduos da vinificação, 
                                         agora com nanotecnologia, para Spas


O óleo de semente de uva é um ingrediente natural e contém diversos ácidos graxos insaturados que fornecem ao produto alta atividade hidratante. Além disso, possui bioflavonóides, que possuem potente atividade antioxidante. “Quando criamos a Vinotage a idéia era aproveitar os subprodutos das vinícolas aqui da região, especialmente as sementes,” diz Morgane Franzoni fundadora da Vinotage, que tem uma linha completa com sabonetes, hidratantes, esfoliantes, xampus, sal de banho, entre outros produtos.

“Atualmente uma empresa de Caxias está fazendo esta extração, entretanto em fase de testes. Mas conseguimos colocar o óleo em nanopartículas, onde temos um resultado excelente pois propiciamos uma oclusão comparável a da vaselina, líquida, sem residual graxo, permitindo maior eficácia e potencializando os benefícios dos polifenóis da uva,” diz Franzoni.

Há três anos, a Cooperativa dos Citricultores Ecológicos do Vale do Caí – Ecocitrus, de Montenegro (RS), vende em média oito toneladas de óleos essenciais extraídos da casca da bergamota, para a Europa, principalmente para a França, onde são usados como insumos para fabricação de produtos de beleza, como fixador de aromas e componente de águas de colônia e também para aromaterapia, por suas propriedades equilibrantes das emoções.

Investir em nova tecnologia e extrair essências foi a alternativa encontrada pela cooperativa para dar um destino ao raleio – técnica que consiste na colheita da fruta ainda verde para diminuir o peso da árvore e possibilitar que as demais cresçam, dando assim destino internacional a uma fruta que seria descartada. “A cooperativa, com este processo, busca a agregar valor aos produtos dos agricultores, tirando a intermediação de terceiros na produção e na comercialização,” diz Ernesto Kasper, gerente de relações institucionais da  Ecocitrus. No ano passado, o faturamento da cooperativa com a venda do óleo chegou a R$ 800 mil, beneficiando 65 sócios. “Com os agricultores viabilizando a industrialização e comercialização, chegou-se em um acréscimo no valor do Kg de Berg. Verde(raleio) de mais de 30%, comparando com o que as empresas da região remunera’, conta.

Baseada em biomas como Amazônia, Caatinga, Cerrado, Pantanal, a empresa francêsa L´Occitane pesquisou e desenvolveu duas linhas de produtos com ativos da biodiversidade brasileira Mandacaru da Caatinga e Jenipapo do Cerrado, que nunca haviam sido utilizados no setor de cosméticos. O Mandacaru, cacto nativo da Caatinga, por sua resistência aos períodos de seca, possui alto poder de hidratação própria devido à reserva de água nos caules e a empresa buscou o cultivo da matéria-prima do mandacaru, – antes usada para alimentação de animais -, de maneira sustentável, com produtores locais, em parceria socialmente responsável, baseada em desenvolvimento mútuo e contínuo.

                           
                        L´Occitane no Brasil, com jenipapo sustentável

A outra linha é Jenipapo do Cerrado, um ingrediente comestível típico da região, mas fornecido pelo Sítio do Bello, localizado na cidade de Paraibuna, interior de São Paulo. A maneira sustentável de cultivo parte da constatação de que a conservação da flora brasileira especialmente as de frutas nativas de ecossistemas do país é possível, por meio da criação de valor econômico, o que se dá através da produção em escala comercial. O Jenipapo tem grandes flores ensolaradas e pétalas douradas, que perfumam o ar com uma fragrância floral-frutada. Além disso, extrato dessa planta do Cerrado hidrata, repara e protege o cabelo e a pele.

“Assim como fazemos na Provence, buscamos identificar ingredientes que fossem emblemáticos, mas não óbvios, tornando as histórias por trás de cada produto únicas também para os brasileiros”, diz Benjamin Beaufils Diretor Geral do Grupo L’Occitane no Brasil.