Os valores de uma empresa, mais do que a própria liquidez, deverão ser destacados na gestão de empresas daqui por diante. Muito mais do que competitividade, a sustentabilidade em relação ao meio ambiente, com a ajuda da tecnologia e da inovação norteará as questões administrativas.

A almejada Gestão de Qualidade, que já era um processo relacionado a questões ambientais, ganhou uma dimensão muito maior: a de romper paradigmas, um recado que precisa ser cada vez mais propagado pela mídia e assimilado por todos o quanto antes. Esta foi em poucas palavras a tônica do 15º Seminário Internacional em Busca da Excelência 2007, realizado pela Fundação Nacional de Qualidade – FNQ e a Fundação Ibero-Americana para a Gestão da Qualidade – Fundibeq (Iberoamérica), em São Paulo na semana passada. 

“Temos que compreender e não podemos fugir das evidências de que estamos entrando numa mudança profunda de um padrão civilizatório”, sentencia Ricardo Young, presidente do Instituto Ethos de Empresa e Responsabilidade Social, membro do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social da Presidência da República.

Assim como ele, os demais participantes da apresentação dos trabalhos enfatizaram que este é o momento de transformação, porque em 10 anos, acreditam os mais otimistas ou em 5, os mais pessimistas, o mundo enfrentará tragédias e carências grandiosas se líderes, empresas e cidadãos não transformarem seus valores, atitudes e hábitos. Sendo assim, o Seminário, assim como a VIII Convenção do Prêmio Ibero-Americano de Qualidade – “Aprender com os Melhores” realizada na mesma ocasião, tiveram por objetivo discutir o aperfeiçoamento da gestão e discutir o papel dos líderes. Para isso contaram com a presença de economistas, acadêmicos nacionais e internacionais e com empresas apoiadoras da FNQ  e do Fundibeq  – ambas entidades sem fins lucrativos que promovem o aumento de competitividade de empresas brasileiras e latino-americanas.

A vida acima do interesse econômico

Dirigido a diretores e profissionais de organizações de diversos setores e portes o Seminário abordou O Papel da Liderança numa Sociedade em Transformação. Para introduzir o tema o Seminário contou com a palestra de um convidado de honra: o premiado economista e ecologista chileno, Manfred Max Neef, ex-professor da Universidade de Berkeley entre outras universidades dos Estados Unidos e América Latina. Ele discorreu sobre qualidade de vida, necessidades e satisfações.

De acordo com dados expostos pelo professor, estamos fazendo uso dos recursos de 1 planeta e 1/3 dele para satisfazermos nossas necessidades.  E apresentou ainda uma nova unidade de medida: o Ecosoma ou, o quanto um certo número de habitantes consome em ativos/energia terrestre. O que certamente nos faz pensar e repensar nossos caminhos. “Os Estados Unidos, por exemplo, despontam como campeões absolutos em ecosomas: para 300 milhões de habitantes, utiliza 3.8 ecosomas, citou, para concluir, o ecologista: “Nenhum processo ou interesse econômico, sob circunstância alguma pode estar acima da reverência à vida”.

O professor respondeu ainda a única mulher entre os debatedores, Ieda Patrício Novais, presidente da Diretoria executiva do FNQ e diretora Corporativa da Trevisan, empresa de auditoria e consultoria, que a mulher, apesar dos avanços da sociedade ainda tem pequena participação nesse processo de transição.  “Deverá, no entanto, ser considerada como aliada e companheira, já que sua maneira de ver o mundo é cada vez mais necessária”.

A tecnologia como ferramenta de inovação

A busca pelo aperfeiçoamento, passa pela responsabilidade do líder em trazer para os organismos novos conceitos e valores, tanto quanto a de estudarem e implementarem um crescimento voltado para novas tecnologias que amenizem o impacto ambiental.

Ricardo Young citou o exemplo da Start Oil, empresa que domina tecnologia de exploração de petróleo em mares profundos. “A preocupação da Noruega com o desenvolvimento sustentável é tão grande que eles desenvolveram uma técnica para a exploração de petróleo que para não impactar o Ártico, a extração quando chega na plataforma, o processamento de separação do gás e do óleo, que antigamente era queimado, produzindo emissões de carbono, rejeita o carbono dentro do próprio poço, de forma que o impacto da extração é perto de zero”.

Por aí se vê que o papel das empresas vai mudar drasticamente. “Acredito que estamos diante de uma mudança tão grande como foi a mudança da Revolução Industrial, da transição do mercantilismo para o capitalismo”, disse Young.

Sendo assim, qual seria o papel das empresas e seus líderes nessa história? Para Pedro Luiz Passos, presidente do Conselho da FNQ e Co-presidente do Conselho de Administração da Natura Cosméticos, é o de inovar. Entender qual é a demanda que está sendo colocada e inovar. “Não com um sentimento de que há mais uma coisa para ser feita ou de que há mais uma restrição a obedecer, mas inovar porque existe uma enorme oportunidade para se posicionar de acordo com essa demanda”, propõe.

“Quem for conservador vai sair do jogo”, avisa o administrador de empresas e um dos responsáveis pela entrada da Natura no mercado de capitais.  Porque quem tiver uma atitude conservadora diante dessas novas demandas não terá presença assegurada. Só existirão organizações que fizerem sentido para a sociedade”, sustenta Passos.

A criação de valores que transcendam o tempo

José Guimarães Monforte, presidente do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa – IBGC completa a idéia: “É preciso tomar decisões que transcendam apenas uma geração”.  Para ele, economista por formação e com ampla experiência no mercado de capitais, e membro do Conselho de Administração da Natura Cosméticos, entre outras organizações, lucro é uma questão de curto prazo e o que importa mesmo é a criação de valores que passam no horizonte do tempo e das gerações e que incluem a questão moral. “A questão do valor também é uma somatória de lucros de curto prazo. O importante é como ele é obtido”, disse.

A sustentabilidade, de acordo com ele, não depende apenas do resultado, mas da eficiência econômica e ela, assim como outros elementos da sustentabilidade, depende da eficiência do sistema de gestão que torne a organização eficiente e que prospecte o futuro.

Por essa razão ele defendeu ainda a evolução de sistemas de governança, como forma de separar capital e gestão, um sistema de decisões aberto e aperfeiçoado com a inclusão das empresas no mercado de capitais, como forma desses sistemas incorporarem maior participação e maior demanda, influindo na questão moral.

Só depende das empresas, portanto, arregaçar as mangas e buscar estas transformações tão necessárias para a sobrevivência não só do planeta, mas das próprias empresas. As informações foram transmitidas por quem entende de qualidade e competência nesse encontro. Hoje à tarde, na próxima reunião, no fechamento do mês. O recado está dado. A hora é agora!

Conceitos da Excelência em Gestão
A Fundação Nacional de Qualidade  este ano oferece ainda em os seus Encontros Semanais a questão da liderança, para a discussão de experiências, encontros que líderes de empresas não deveriam perder.
Os Conceitos Fundamentais da Excelência em Gestão que a FNQ elaborou são os seguintes:

Pensamento Sistêmico (ou, o entendimento das relações de interdependência entre os diversos componentes de uma organização, bem como entre a organização e o ambiente externo); Aprendizado Organizacional (busca e alcance de um novo patamar de conhecimento para a organização por meio da percepção, reflexão, avaliação e compartilhamento de experiências) Desenvolvimento de Pessoas, Cultura de Inovação (Promoção de um ambiente favorável à criatividade, experimentação e implementação de novas idéias que possam gerar um diferencial competitivo para a organização), Geração de Valor (alcance de resultados consistentes, assegurando a perenidade da organização pelo aumento de valor tangível e intangível de forma sustentada para todas as partes interessadas), Valorização de Pessoas (estabelecimento de relações com as pessoas, criando condições para que elas se realizem profissionalmente e humanamente, maximizando seu desempenho por meio do comprometimento, desenvolvimento de competências e espaço para empreender), Orientação por Processos e Informações (compreensão e segmentação do conjunto de atividades e processos da organização que agreguem valor para as partes interessadas, sendo que a tomada de decisões e execução de ações deve ter como base a medição e análise do desempenho, levando-se em consideração as informações disponíveis, além de incluir os riscos identificados), Conhecimento sobre o Cliente e o Mercado (visando a criação de valor de forma sustentada para o cliente e, conseqüentemente, gerando maior competitividade nos mercados), Responsabilidade Social, Desenvolvimento de Parcerias e Visão do Futuro (compreensão dos fatores que afetam a organização, seu ecossistema e o ambiente externo no curto e no longo prazo, visando a sua perenização).