O cométicos br estava de férias quando Anita Rodick morreu aos 64 anos de idade no mês passado. Mas, não poderíamos deixar de lembrar da dame do The Body Shop e sua contribuição para o setor cosmético e para a sociedade como um todo.

Anita Roddick morreu no dia 10 do mês passado de hemorragia cerebral causada por hepatite C, contraída durante o parto de sua filha, em 1971 mas só sabida em fevereiro deste ano. Anita iniciou sua carreira de empresária do setor de beleza em 1976 numa pequena loja hippie em Brighton, Inglaterra. Mas a empresária de 33 anos à época se estabeleceu e imprimiu sua marca no setor sublinhando os conceitos do The Body Shop, com critérios bem definidos de atuação e uma missão e visão inovadoras para a época.

Seus produtos eliminavam qualquer possibilidade de utilização de produtos testados em animais, assim como os que não tivessem reflorestamento da matéria-prima, que utilizassem o trabalho infantil, que agredisse qualquer trabalhador ou o colocassem em situações de alto risco, que não fossem biodegradáveis ou recicláveis. Foi fundadora, por exemplo, de organizações como Children on the Edge (algo como crianças em risco).

Roddick foi pioneira em beleza ética muito antes do assunto se tornar um modismo, muito antes das campanhas de Dove e Stella McCartney. Ela criticou a dominação masculina na indústria cosmética por jogar com as inseguranças femininas e foi honesta ao remarcar que não havia produtos que fizessem a mulher parecer mais jovem. Ela disse ao Star em 1988, “Nenhum creme faz mais que o outro. Todo creme hidratante funciona.”
Adrian Bellamy, chairman do The Body Shop International, disse numa declaração que “Anita foi não apenas nossa fundadora, mas ela também era o coração e a paixão do The Body Shop. Não é exagero dizer que ela mudou o mundo dos negócios com suas campanhas por responsabilidade social e ambiental.”

A maquiagem da marca não era testada em animais e seus cremes vinham em recipientes refiláveis não glamurosos. Em 1976, estes eram conceitos modernos que apelavam para uma consciência ambiental recém despertada.
Roddick foi a pioneira em ética e beleza ambiental e por isso ganhou o título real de “Rainha do Verde.” Em 2003, a Rainha tornou Anita Roddick dama em reconhecimento a suas contribuições.

Consciente de que a maioria das empresas cosméticas é governada pela embalagem, no final dos anos 80 Anita introduziu uma embalagem plástica biodegradável feita por um fabricante de Toronto. Em 1985, ela disse ao jornal Star, “Você compra uma coisa, leva para casa então joga fora montanhas de celofane, papel, cartão, fita e outras sucatas antes de você chegar ao produto.”

Sua esfera de influência se expandiu para apoiar o comércio livre e os direitos humanos. Em 1994, The Body Shop do Canada lançou a primeira campanha contra a violência às mulheres – STOP Violence Against Women. E em 1997, atentou quanto a conscientização da mudança do clima com o programa “Help Take the Heat Off” (ajude a acabar como o aquecimento).

E enfatizou a importância da Responsabilidade Social: “A responsabilidade social não pode ser vista como um modismo. Deve ser vista como a real missão das organizações e das pessoas que trabalham nela. Ações indispensáveis para o bom funcionamento das comunidades, da diminuição das desigualdades sociais, da oferta de oportunidades para todos”.

Assim como as convicções de Roddick cresciam, a empresa floresceu. Hoje há quase 2000 lojas em 50 países. Em 2006, The Body Shop foi comprada pelo Grupo L’Oreal. Mas a empresa permanece como uma empresa administrada independentemente.

“Desde o início, o que a The Body Shop gera de mais importante não são os produtos, mas sim os princípios”, disse Anita que veiculou uma campanha que conceituava a beleza como parte integrante do dia-a-dia da mulher, como algo proveniente de nosso caráter, curiosidade, imaginação e humor. Beleza como uma expressão ativa e exterior de tudo o que gostamos em nós mesmas.

No site da The Body Shop Roddick escreveu sobre seu início, com sua loja em Brighton. “Comecei o The Body Shop simplesmente para criar um meio de vida para mim mesma e meus dois filhos (Justine e Sam) enquanto meu marido Gordon estava viajando pelas Américas.”

Gordon Roddick, um poeta e viajante, se juntou ao The Body Shop muito depois, em 2002. Com a compra da empresa, Roddick e seu marido foram reduzidos a co-chairmen, embora ela tenha continuado a contribuir com a empresa como consultora.

Quando esteve no Brasil, em 2002, disse: “Às vezes o dinheiro não é a coisa mais importante. O Brasil tem um povo empreendedor e criativo. Eu entendo o ato de empreender como um pacote: primeiro você tem de ter uma idéia. Depois você tem de transformar essa idéia em realidade. Você vai precisar de uma boa dose de otimismo. Terá de processar o seu trabalho e saber muito bem onde aplica o dinheiro que tem. Por último, acho muito importante valorizar as pessoas e empresas locais, para contribuirmos para a comunidade em que estamos”.

Dizia nos últimos tempos que “quem faz as regras nos dias de hoje não são as empresas e sim os consumidores, que estão mais vigilantes e exigentes com os produtos e serviços oferecidos, com a qualidade do atendimento e começam a valorizar e apoiar empresas socialmente responsáveis”.

Não é sem motivos, portanto, que Adrian Bellamy ressaltou a visão de Anita Roddick: “Anita nos deixa com uma herança duradoura que vai guiar por muito tempo os negócios do The Body Shop”.