O grande desafio mundial de diminuir o impacto ambiental começa a ganhar contornos mais definidos com as embalagens refiláveis, entre outras soluções renováveis. Grandes empresas de produtos de limpeza, de cosméticos, produtos de maquiagem e produtos de higiene, com suas embalagens plásticas passam a aderir ao movimento em busca de soluções de menor impacto ao meio ambiente. De outro lado fornecedores de embalagens buscam tecnologias e design diferenciado para atender a este mercado.  Quem sai ganhando é o consumidor, que está pagando menos por refis de embalagens mais sofisticadas, minimizando o impacto econômico, ecológico e até emocional, na medida em que ele se sente menos culpado pelos estragos que o seu consumo possa causar ao meio ambiente.

“Os materiais empregados devem ser os mais baratos possíveis a fim de atingir o objetivo de uma embalagem mais econômica. Os mais utilizados são o PE e PP facilmente recicláveis. Em geral as dificuldades estão em produzir peças com paredes finas”, diz Jefferson Pelissaro, responsável pela área de desenvolvimento da Ab Plast.

No Brasil, quem saiu na frente foi a Natura em 1983 quando introduziu no mercado  sua embalagem refilável para o sabonete de erva-doce, com o conceito ecologicamente sustentável dos 3Rs – redução, reutilização e reciclagem.

Na prática aumentou a vida da embalagem e vantagem econômica para o consumidor, que aceitou bem a idéia. Dados disponíveis mais recentes da empresa constatam que 19,8% do faturamento da empresa em 2006 veio da venda de refis. “E esse número vem crescendo, mesmo nas vendas internacionais”, diz Luciana Villa Nova, gerente de Desenvolvimento de Embalagem da Natura, que constantemente estimula suas consultoras de beleza a atuarem como multiplicadoras dos conceitos de responsabilidade socioambiental e consumo consciente.

Para a empresa o custo dos refis fica entre 20 e 30% do valor do produto regular. “Calculamos o custo do produto, da embalagem, dos recursos humanos para o processo industrial e depois a margem. Às vezes não é tão barato e acaba custando um pouco mais, mas mantemos no cálculo esse custo de 20%, porque o consumidor se sente valorizado”, afirma a gerente.

Para o meio ambiente todo ganho é sempre bem vindo. O refil consome em média 30% menos recursos naturais do que a embalagem regular, de acordo com a Natura, que tem atualmente 146 produtos em linha com embalagens refiláveis, entre as linhas Ekos, de produtos para o corpo com ativos da biodiversidade brasileira, as linhas de maquiagem Natura Diversa e Faces, a linha corporal e também facial Erva Doce, entre outras. Os materiais vão de alumínio reciclável, potes e canecas com rosca, sombras em tabletes e frascos em PET 30% reciclável.
 
De acordo com cálculos da Natura o refil da base corretiva, com impacto ambiental 72% menor que a embalagem regular. O refil do blush também tem a mesma redução. O do batom impacta 71% menos o meio ambiente, enquanto no refil do duo de sombra essa redução é de 68% com tabletes em alumínio totalmente recicláveis.
 
“A situação ideal seria utilizar materiais recicláveis e biodegradáveis. No entanto, a dificuldade dos biopolimeros  – polímeros de origem vegetal – é que eles são uma tecnologia recente, que o mundo todo está estudando, assim como nós. Há muitos desafios ainda”, diz Luciana Villa Nova. 

                       

A americana Avon, concorrente da empresa em venda direta no país, acaba de lançar a linha liiv botanicals, com dois produtos que oferecem refis para as consumidoras, em concordância com o posicionamento da linha: o Gel Facial Revitalizante Noite, e o Creme Facial Revitalizante FPS20 Dia, ambos com o preço regular de R$32,00 e refil por R$ 22,00.

Não é a primeira linha de produtos da empresa a oferecer refis aos consumidores. O sabonete cremoso da linha Erva Doce e a base compacta de múltipla ação da linha de Maquiagem Avon também oferecem refis. “É uma maneira de gerar mais acessibilidade dos consumidores aos produtos, uma vez que a Avon busca a democratização da beleza”, diz Ricardo Patrocínio, diretor de Marketing de Cosméticos da Avon Brasil.

A franqueadora paranaense O Boticário também oferece produtos com refil aos seus consumidores desde 1999, com a linha de Tratamento Facial da marca. “A opção foi para permitir ao consumidor que continuasse utilizando o produto, despendendo menos recursos do que com uma nova embalagem completa e para a redução do consumo de material e conseqüente diminuição do impacto ambiental”, diz Renata Barini – Gerente de Desenvolvimento de Embalagens do Boticário. 

                        

A empresa utiliza refis para a linha de tratamento facial VitActive com canecas para os potes e na Linha de Maquiagem o Boticário, com bandejas de sombras que podem ser montadas na embalagem principal e o blush Soft Blush acaba de ser apresentado em embalagem refilável, seu preço regular é de R$ 63,90. O refil custa R$39,90.

“As embalagens refiladas, especialmente para a maquiagem proporcionam ainda grande agilidade nos lançamentos sasonais do Boticário e permitem ainda que as consumidoras estejam sempre atualizadas com as cores das estações”, ressalta Renata Barini.

Da mesma forma a alemã ArtDeco que traz sua linha de maquiagem ao país, oferece, desde a sua fundação em 1985, sombras, blush, base (Doublé Finish) e pós em embalagens cujo conteúdo vem em pastilhas magnéticas que podem ser trocadas, conforme o gosto e a necessidade do consumidor. A marca tem embalagem para até 10 tonalidades refiláveis de sombras.

                          

“As embalagens acabam tendo uma vida útil maior porque conseguimos aproveitar o conjunto muito mais. Num produto convencional os produtos terminam e a embalagem é jogada fora”, diz Claudia Duarte, gerente da marca ArtDeco, da Frajo, distribuidora da marca no país. De acordo com ela o consumidor final economiza até 30% com a embalagem refil. “O segundo ponto é a customização, com produtos cada vez mais feito sob medida. O atendimento das necessidades de cada mulher é um dos princípios que direcionam o conceito da marca”, ressalta Cláudia.

Fornecedores

São as grandes empresas que vem desafiando o mercado de fornecedores de embalagem a desenvolver e a produzir cada vez mais e com maior tecnologia embalagens refiláveis.

Com fábrica no país há menos de cinco anos, a Rexam produz embalagens refiláveis para Natura e Boticário. Para ambas a empresa produz embalagens refiláveis de maquiagem. Um dos destaques da empresa foi o desenvolvimento do batom refilável da Natura. “Nesse caso, o próprio mecanismo montado com a bala do batom é utilizado como refil”, diz Alexandre Trimigliozzi, coordenador de contas da Rexam do Brasil. O outro é a embalagem da base líquida um frasco plástico que é montado e desmontado sob uma capa rígida no formato de um frasco, sem fundo.

A empresa produz quatro tipos de embalagem refilável: click, que tem como referência tampas de baterias dos controles remotos;  interferência, quando duas peças são montadas utilizando-se as diferenças dimensionais entre as áreas que irão se encaixar, ou seja, a peça com uma região de dimensão maior encaixa-se de forma forçada em outra peça com uma região de dimensão menor e rosca, acoplamento entre duas peças tipo tampa e gargalo de frascos para líquidos e pressão quando duas peças necessitam de força mecânica para serem acopladas uma à outra.

“Na concepção de um refil, as maiores preocupações são a facilidade de transferência do conteúdo, custo e transporte, resultando em modelos específicos para cada caso”, avalia Jefferson Pelissaro, responsável pela área de desenvolvimento da Ab Plast, fornecedora de  alguns porta-refil de maquiagem, canecas para potes e tampas para bala do batom para Natura. Os refis podem ser do tipo frasnagas com bico, saches, canecas para potes, insertos para maquiagem, etc. “A diferença está no objetivo, aponta, há também os de paredes mais finas para minimizar custos e facilitar o aproveitamento do conteúdo”.

“Não é complicado. O importante saber no início do projeto, porque já temos ferramentas, formas de encaixar para o público. Normalmente fazemos para não sair, mas quando é refil precisa fazer de maneira fácil a montagem e desmontagem  várias vezes”, Maurício Carini Gerente Comercial da Aptar B&H Embalagens MBF Embalagens LTDA.

A Vulcan, fabricante de filmes e laminados de PVC, em embalagens plásticas flexíveis aposta  no SoftPack, um sachê confeccionado a partir de bobinas técnicas de filme de PVC,  especialmente voltado ao uso como refil para embalagens rígidas de cosméticos. Entre suas características estão a de poupar espaço na estocagem, gôndolas, na despensa do consumidor e no descarte. São ideais para sabonetes líquidos, normalmente comercializados em frascos com válvulas pump, portanto mais caros.

A história dos refis e materiais biodegradáveis está apenas começando e a indústria cosmética deve lançar mão de todos os recursos, disponíveis ou não no mercado, para encontrar sua trajetória para contribuir com a redução do impacto ambiental e ficar de bem com seus consumidores.