1 – Quando surgiu e quais foram as conquistas da Paralela até aqui?

A Paralela foi fundada em setembro de 2012, e ao longo desses sete anos houve uma consolidação da escola, tanto é que este ano tivemos uma mudança de logomarca e de nome: nascemos Perfumaria Paralela porque eu carregava a perfumaria em mim, por ter trabalhado com perfumaria e em casas de fragrância, mas ao longo dos anos a empresa foi se assumindo cada vez mais como uma escola. O nosso negócio é sobre cursos, sobre cultura da perfumaria, treinamento corporativo. Então na prática nos tornamos uma escola e mudar o nome foi só uma adequação, uma realidade à qual nos ajustamos. Hoje somos a Paralela Escola Olfativa e ao longo desses sete anos, mais de 1000 alunos passaram por esses cursos e mais de 300 mil pessoas foram impactadas pelos treinamentos corporativos que nós fornecemos para nossos clientes, como Natura, Boticário.

Em sete anos estamos caminhando para a oitava edição do curso anual de formação em perfumaria. Em 2019, pela primeira vez levamos um grupo de 15 alunos para estudar uma semana na França, 2 dias na nossa escola parceira , a Cinquième Sens, visitamos a fábrica da Guerlain em Orphin, tivemos uma tarde exclusiva na Guerlain da Champs Élysées, aulas exclusivas na Osmothéque – a única biblioteca de perfumes do mundo, visitamos a casa de fragrâncias Firmenich e tivemos uma aula com renomado perfumista Olivier Cresp, criador de de Angel, Nina Ricci, Dolce & Gabbana, Light Blue e muitos outros sucessos.

 

2 -Então pode-se dizer que a sua trajetória em perfumaria definitivamente trouxe elementos para o desenvolvimento da Paralela Escola Olfativa?

Minha trajetória nessa indústria é de 20 anos  Eu trabalhei na Firmenich e na IFF. Eu fui treinada como avaliadora olfativa em São Paulo, Paris, Nova York e Genebra. Trabalhei com todas as categorias de perfumaria, mas principalmente com perfumaria fina. Depois de avaliadora olfativa, fui diretora de marketing em Perfumaria Fina também para a América Latina e a minha última posição na Firmenich foi a de diretora da Unidade de Negócios para Perfumaria. Além de ter trabalhado com perfumistas renomados nessas duas empresas, como Sophia Grojsman, que desenvolveu Trèsor, Olivier Cresp, Thierry Wasser que vinha muito para a América Latina atender os clientes da região e hoje é o perfumista da Guerlain. Jacques Cavallier, que também trabalhava nos projetos da América Latina e hoje é o perfumista da Louis Vuiton. Essa é a formação que eu levei para a Paralela.

 

3 – Você teve a percepção de que era o sonho de muitas pessoas apaixonadas por fragrâncias entender um pouco mais sobre o assunto? É possível para essas pessoas seguirem em frente na carreira a partir de cursos apenas no Brasil?

O nosso público, ao longo desses sete anos, se consolidou na diversidade. Ele abraça profissionais do setor, em diferentes posições e em diferentes portes de empresa, tanto de grande porte, quanto uma empresa bem jovem do mercado brasileiro, pessoas apaixonadas por perfumes, colecionadores, que se aproximam de nós para viver a perfumaria e até mesmo empreendedores, do setor de pet inclusive e terceiristas. Assim como empreendedores de marketing olfativo, que fazem a identidade olfativa de hotéis, bancos spa, agências de carro e assim por diante e de todo o Brasil. Por isso temos um curso totalmente dedicado a essa temática, que é um sucesso consolidado no mercado.

 

4 – Para os profissionais do mercado estes cursos e workshops representam uma oportunidade de compartilhar e transmitir conhecimentos do que aprenderam da perfumaria brasileira e internacional?

Os instrutores que dão aula aqui, são profissionais do mercado, então, costumo dizer que para trabalhar o dia inteiro e vir aqui à noite dar aula, ou no sábado, é preciso ter muito amor, paixão pela perfumaria. Tenho a sorte de ter me relacionado com muita gente na indústria e às vezes pessoas novas, que eu nem conhecia e que decidiram se juntar a esse projeto e dar aulas aqui, com o intuito de compartilhar seus conhecimentos. Quando você ensina, você aprende. Aprendi isso na prática e é uma experiência muito rica, onde você convive com pessoas muito diferentes, de todas as partes do Brasil, que é absolutamente um país plural e diferenciado. Damos aulas aqui para 20 pessoas por turma e às vezes são todas de fora de São Paulo, então é muito enriquecedor para esses profissionais também.

Sobre isso temos um Ateliê de Criação onde as pessoas podem se expressar. Tem muita gente querendo fazer o próprio perfume. Mas há também muito desconhecimento no mercado. Uma combinação geral, onde as pessoas querem fazer as próprias coisas. Pode ser perfume, pode ser cozinhar, pode ser bordar, tricotar… Só que com perfume as coisas são um pouco mais complexas, porque envolve muitas matérias primas, segurança. Como vim da indústria, o que fiz foi estruturar um curso que é o Atelier de Criação, da escola francesa Cinquième Sense, no Brasil. Então essas pessoas participam desse curso que tem um kit com 19 ingredientes, um perfumista conduz a aula, ensinando como que se desenvolve o pensamento criativo de um perfumista e a distância entre imaginar e realmente criar. O nosso objetivo com isso é valorizar a perfumaria e mostrar que para criar uma fragrância se exige estudo, técnica e talento. As pessoas também se divertem. É um encontro muito gostoso, bonito, são 4 horas. As pessoas têm sim seu sonho de criar seu próprio perfume.

A perfumaria tem um encanto. É um tema infinito e ainda me surpreende muito como a gente conhece muito pouco sobre ela, tem pouco acesso aos ingredientes. Então brincamos aqui por exemplo na aula da Veronica Kato, porque eu nunca tinha visto ylang ylang de perto. São poucos os privilegiados que veem isso. São os profissionais que vão acompanhar a colheita no campo, normalmente o pessoal de compras, ou perfumista ou é algum projeto com o cliente. Eu nunca tive essa experiência. Então você vivenciar essa experiência de perto é muito enriquecedor. A Verônica trouxe um maço de vanilla ela distribuiu: uma vanilla para cada um, que veio de Madagascar. Ela fez um sorvete com Cumaru. Então o encantamento da perfumaria que sempre sonhei em resgatar através da minha escola vem disso. Porque a gente fica muito focado no business. E é normal, é um negócio que você toca. E essa parte mais poética que é a origem dela, acaba ficando nos bastidores e não dá nem tempo de você contar e viver essas histórias. E aqui você encontra o ambiente onde isso e possível e é muito bonito de ver como as pessoas se engajam. Uma pessoa ocupada como ela, com uma agenda alucinante, encheu a mala de coisas e trouxe para cá numa noite basicamente entre amigos e curiosos, onde a gente degustou cheirou, deu risada, trocou ideias, e ela explicou coisas complexas de uma maneira muito leve, que as pessoas gostaram muito.
A 10ª. Master Cless vai ser a do Cesar Veiga, do Boticário. Nós tivemos muitas outras marcas aqui. O Cesar vem contar um pouco sobre os segredos da marca e falar um pouco justamente dessa dualidade que o Boticário tem trabalhado entre arte e tecnologia, ao mesmo tempo em que eles falam de neurociência e inteligência artificial, eles resgatam a arte de uma destilação, eles resgatam a arte de técnica de uma técnica de extração, como a Enfleurage. Então acredito que será um outro encontro empolgante.

 

5 – Qual seria o toque da perfumaria brasileira em meio às criações internacionais? Você diria que há uma personalidade olfativa brasileira? 

Sempre aparece uma questão como essa, mas eu acho que quando você generaliza, você acaba perdendo a beleza das nuances, porque cada marca, cada fragrância de uma marca, traz uma história, uma nuance, um ingrediente. Então eu evito um pouco essa generalização e o Brasil é um mercado muito jovem, que tem a sua perfumaria que nasceu aí no final da década de 40 e ela está em formação. É claro que a gente segue o mercado internacional, mas a gente tem observado um exercício das marcas de trazer maior criatividade e é bonito de ver. Então o brasileiro gosta de fragrâncias potentes, gosta de fragrâncias que durem. Mas não é só isso, porque também tem vários brasileiros e tem vários momentos socioculturais. Então acho que não tem uma única verdade. Como em tudo existem vários tipos de fragrância, que agradam a vários perfis diferentes, de várias regiões. O que gosto de ver é que tem marcas se posicionando para terem fragrâncias mais fechadas, mais delicadas, talvez pesadas. Acho que a Phebo nesse sentido tem feito um trabalho bem bonito, com a sua coleção de biblioteca olfativa, a própria Natura que conhecemos esta semana o Ekos Alma que tem uma delicadeza incrível. Ele vem de numa estrutura mais unissex até que tem uma certa leveza, mas que também é balsâmica, que tem uma sensualidade que não é óbvia. Então tem marcas fazendo um trabalho bonito mesmo. O próprio Boticário com The Blend, uma fragrância interessante que conta uma história bacana das especiarias que foram destiladas juntas. Então acho que o nosso mercado tem evoluído em busca de inovação e se iguala mesmo ao mercado internacional. Vai chegar o dia em que o Brasil vai inspirar o resto do mundo. É para isso que a gente trabalha aqui.

 

6 – Você diria que seu trabalho é um desenvolvimento do que você fazia? Como você atuava e o que te faltava?

Eu diria que meu trabalho é uma continuação daquilo que eu fazia. Tenho pelas minhas experiências anteriores, uma visão bem 360° e o que eu mais gosto de fazer é a parte criativa, de inovação. Eu sempre fui mais idealista de acreditar que é possível no mercado, com suas dificuldades político-econômicas que o Brasil tem, de ir além, não só em um país que consome muita perfumaria, mas de ser um país que consome e entende sobre perfumaria e essa educação sobre perfumaria vai levar o Brasil para um lugar de maior inovação e menos cópias, contratipos. É um caminho longo, um trabalho de formiga, que a gente constrói dia a dia. Essa mensagem a gente tem levado Brasil afora, mas acho que um pouco por dia faz o todo. Então é esse desenvolvimento do meu trabalho. Atuava em uma multinacional global, como executiva, sempre foi muito divertido, desafiador. Sempre gostei de desafios, gosto de levar projetos com começo, meio e fim. Não me faltava nada. Eu acredito que foi um ciclo que se fechou para começar um outro. A vida é longa, mas e rápida ao mesmo tempo e eu queria me conhecer fazendo coisas diferentes atuando de um outro ângulo na perfumaria.

 

7 – Você acredita que outros profissionais sintam os mesmos anseios e busquem novas formas de se expressarem?

Eu acredito que existam pessoas diferentes com diferentes anseios. Há as que anseiam ter uma carreira toda na indústria, o que é um caminho muito bonito. E há outras que querem se expressar de outras formas. Isso é muito individual. Não tenho dúvida que o mercado e o mercado corporativo tenham mudado muito e esse desejo de se expressar é mais possível hoje em dia, com a quantidade de redes sociais e empreendedores que existem. Não é um caminho fácil. Não acho que é um caminho para todos. Exige muito muito trabalho, operacional inclusive. Mas acho que se você tem um perfil para isso e realmente é o seu sonho, acho que você tem uma forma de se expressar e é muito recompensador. Você ter uma ideia, lutar por essa ideia , implementar e colher os frutos, ver o resultado, o comentário das pessoas… É muito gostoso.

 

8 – Seria uma tendência as escolas de perfumaria no Brasil?

Sem dúvida essa era por que passamos é uma era de educação e ela passa por todos os segmentos de mercado. Então acho que existe talvez uma crise aí no modelo de ensino, uma crise além Brasil. E acredito muito no modelo de ensino onde as pessoas traçam desenham a sua própria formação. Então de forma alguma não deixo de acreditar numa formação formal, mas ao mesmo tempo, existem inúmeras possibilidades de você formar sua bagagem cultural e vários cursos livres – desde escolas como a The School of Life – que eu gosto muito, que oferece cursos que você pode aprender sobre uma dimensão mais emocional, que você não aprende em lugar nenhum e lá é o lugar para você conversar sobre isso, até aprender sobre uma escrita criativa ,e isso vai te tocar de formas que você nem imaginava e é por isso que estamos trazendo uma instrutora nova para o curso anual de formação. Ela vai falar sobre o poder da comunicação mais afetuosa, aplicada ao poder da perfumaria, então eu acredito que tem muita coisa acontecendo no mundo e que a perfumaria precisa viver essas outras tendências que não só da própria perfumaria. A inspiração pode vir da tecnologia , pode vir de vários ramos diferentes.

 

9 – Você diria que havia este nicho no país?

Sim. Acho que existe uma super carência por informação. Então recebemos muitos empreendedores, e mesmo profissionais que aprenderam na prática. Então a minha experiência no mundo corporativo foi essa: aprender na prática, aprender fazendo. Os meus colaboradores aprenderam fazendo porque o foco, quando você está na indústria, é ganhar projeto, trabalhar com cliente e precisa reservar um tempo para se alimentar para você se manter interessante, se manter inovador e continuar inspirando seus clientes, que tem que se alimentar de alguma coisa.. Então eu acredito que havia um espaço sim, que a Paralela está ocupando agora. É até curioso porque eu ouvi muitos conselhos de que: Não, é muito difícil. .. Não faça isso… Quem que vai comprar curso? Porque as casas de fragrâncias dão cursos para seus clientes. Mas o público interessado em perfumaria vai muito além do público da indústria de onde eu venho, que e um mercado incrível mas que é uma parte desse mercado.