Diversidade Biológica, registro de espécies brasileiras, áreas de proteção nas Américas e Biosegurança foram os temas da semana

Para as empresas cosméticas que buscam os mercados externos baseadas principalmente no diferencial da biodiversidade brasileira, as discussões do MOP3 e do COP8 que reúne mais de 150 países até o dia 31 de março, interessam e os seus resultados devem ser acompanhados de perto. O que foi apontado e ressaltado nos encontros da semana passada em Curitiba é óbvio, mas nunca demais de ser lembrado: a biodiversidade brasileira requer muita atenção, registro, preservação e apoio.

Na 8ª Conferência das Partes da Convenção sobre Diversidade Biológica (COP8), patrocinada pelo O Boticário – assim como a 3ª Reunião das Partes do Protocolo de Cartagena de Biosegurança (MOP 3) – a expectativa ficou em torno das negociações para a definição de um regime internacional que regule o acesso aos bens de determinada área e a repartição dos benefícios que eles propiciam, entre outros interesses.

Tanto a preservação de espécies da flora brasileira quanto a prevenção à biopirataria, assuntos que interessam às indústrias brasileiras, requerem o estudo e o registro das espécies brasileiras. Nesse sentido as pesquisadoras Dras. Maria Regina e Luciane Marinoni, da Sociedade Brasileira de Zoologia, ressaltaram na COP8 a semana passada a importância da taxonomia, ciência responsável pela descrição dos organismos vivos, fundamental para a preservação da biodiversidade.

As pesquisadores responsáveis pela taxonomia das espécies brasileiras acreditam que o Brasil ainda está muito aquém do que seria ideal na nomeação e classificação dos seus animais e vegetais. Em entrevista à imprensa as pesquisadoras contam sobre o estágio atual e as perspectivas da taxonomia brasileira.


1 – Em que estágio o Brasil se encontra na classificação das suas espécies?

Luciane Marinoni – Existe uma conscientização da necessidade do conhecimento da biodiversidade do Brasil, mas ainda estamos muito atrás do que seria ideal. Com este projeto, planejamos organizar a sociedade científica e o governo para resolver o que chamamos de “impedimento taxonômico”, ou seja, o fato de que não se pode chegar a nenhum objetivo da Convenção sobre Biodiversidade – como, por exemplo, a redução das perdas – se não se conhece a biodiversidade do País. O Brasil tem cerca de 20% da biodiversidade mundial, mas não se conhece um quinto deste percentual. Nós temos mais espécies depositadas em museus internacionais do que se conhece aqui.

2 – O que está se fazendo para resgatar essas informações?

LM – O Brasil passou a fazer parte neste ano da Iniciativa Global de Taxonomia, um programa da Convenção de Biodiversidade que trata desse conhecimento básico e incentiva as coleções biológicas – a maioria em instituições públicas de pesquisa – que por sua vez asseguram conhecimento sobre aquelas espécies que tiveram seus ambientes degradados. O programa Diretrizes e Estratégias para Desenvolvimento de Coleções Biológicas traça, inclusive com previsão de custos, as etapas para organizar as informações que estão nas coleções, num primeiro instante, e nos ambientes naturais.

3 – O que o país está fazendo para catalogar todas as suas espécies?

Maria Regina Barbosa – Há muitos anos estamos trabalhando para criar uma rede de herbários brasileiros, levantando suas situações, dificuldades e, em paralelo, implementando um projeto que chamamos de “Flora do Brasil”, que pretende catalogar todas as espécies que estão ao alcance no menor tempo possível.

4 – Os pesquisadores têm uma estimativa de quantas espécies botânicas o Brasil possui?

MRB – Cerca de 60 mil supostamente identificadas. Ocorre que ninguém cruzou os dados e listou quais plantas são e onde estão. Hoje nós estamos apresentando a primeira listagem de plantas organizadas para uma região que é a Nordeste. Dos 60 mil estimados para o Brasil, esta região possui 8 mil devidamente listadas. O número é 20% maior que a nossa previsão antes dos trabalhos e estimamos que isso também ocorra na pesquisa nacional.