1 – Qual o propósito de sua visita ao país e qual o seu trabalho principal aqui?

Neste momento a Neutrolab, que distribui a marca Guerlain no país, está realizando uma convenção em várias partes do país, então esta é uma boa oportunidade para ver as pessoas e neste momento estou na Beauty Week para cumprir o principal objetivo de minha visita que é a apresentação do novo produto que a marca está lançando no mundo inteiro ao mesmo tempo. No Brasil o produto vai chegar um pouquinho depois porque aqui, como se sabe, já é mais difícil para liberar a mercadoria. O mercado em geral está sofrendo com isso. Por isso o produto vai ser lançado em Outubro, mas no mundo inteiro será lançado em Setembro.

2 – A marca está buscando novo posicionamento com Insolence?

Essa é uma nova fase para nós, um produto diferente, para um público maior. Não massivo porque a Guerlain nunca é massiva, mas muito seletiva, mas um pouco maior porque é para um público mais jovem, que não se identificava anteriormente com nosso produto. Mas com esse os jovens deverão se identificar. Temos uma celebridade que é a porta-voz da Guerlain por três anos que é a Hillary Swank, a primeira atriz com 31 anos a já ter ganhado dois Oscars.
Nós a escolhemos porque ela é uma pessoa de talento, como Guerlain.

3 – Vocês pensaram bastante quando optaram por escolher uma pessoa para representá-los, tendo em vista recentes escândalos envolvendo personalidades que representavam marcas globais?

Sim, durante meses, mas optamos por ela e estamos muito felizes com a escolha. Ela é uma pessoa muito reconhecida pelo seu talento e seu comportamento. Ela é muito profissional. Então estamos bem tranqüilos. Sobretudo porque ela é jovem e a marca queria uma porta-voz mais jovem e nos Estados Unidos ela é um ícone. Todo mundo quer se identificar com ela. Ela vai nos dar também maior visibilidade no mercado americano. O grande objetivo com esse perfume é a visibilidade.

4 – Mas principalmente na América ou globalmente?

Na verdade o primeiro enfoque é a região das Américas. Você tem razão, foi por isso que escolhemos uma atriz americana. Porque nos Estados Unidos a Guerlain tem uma posição muito forte em lojas de departamento onde transita um público que tem muito dinheiro. Infelizmente não temos grande força em locais mais populares. Então precisávamos de um produto e dela para falar a esses consumidores. O continente, as Américas infelizmente representam para nós muito pouco ainda da nossa cifra mundial, mas nos mostra muito bem o potencial de crescimento da marca. Há poucas marcas naquele mercado com o potencial tão forte quanto Guerlain. Somos uma marca muito seletiva, o que quer dizer que controlamos muito nossa mercadoria. Temos pavor do paralelo. Temos um sistema de codificação dos produtos. Por isso as Américas ainda não é um grande mercado.

5 – Infelizmente o Brazil é conhecido por seus problemas com pirataria. Como vocês controlam isso no país?

Sim, infelizmente isso é verdade, o Brasil tem esse problema com muita mercadoria que entra no país via outros países da região, como Paraguai e Uruguai. Mas a única maneira de controlar para uma marca como a Guerlain é vender um volume certo, coerente, em função de cada mercado. Se o potencial do país é de mil, não vamos mandar 300 mil. É a melhor maneira de controlar e também é fazer compras vendo de onde vem este produto. Há o selo contras pirataria da Adipec, temos o nosso selo também, mas na verdade eles são passíveis de cópia. Temos um sistema invisível, que precisa de uma máquina muito sofisticada para ler. É a única maneira. Mas pirataria não tem muito.

6 – O sr. disse que as Américas tem um grande potencial e como é para a Guerlain a América Latina, que é um mercado praticamente inexplorado? Aqui precisará ser muito trabalhado? Ainda vai demorar o interesse da empresa por este mercado, a médio ou longo prazo?

Na verdade as duas coisas. É muito pequeno este mercado então tudo o que fizermos vai ser muito fácil de crescer. E por outro lado é um continente com muitos problemas políticos. A eleição na Bolívia, os problemas na Venezuela. Então, infelizmente não é bom para negócios em geral. Não é bom para a importação de produtos e também há um grande lob, especialmente no Brasil para proteger o fabricante nacional, então infelizmente a América Latina nunca vai representar uma grande preocupação do faturamento mundial. Não tem o poder aquisitivo os países têm problemas demais. Tem uma corrupção absurda. O paralelo entrando em todo lugar. Então a América Latina nunca vai ser para mim uma região chave. Agora estamos trabalhando dentro deste do contexto e dá para crescer muito dentro do contexto. Agora sempre vai ser limitado.

7 – Apesar desses problemas, pelos quais o Brasil sem dúvida também passa, o país tem um tamanho continental e tem um público bom…

Para mim o Brasil tem potencial para ser um dos 10 mercados mais importantes do mundo. Mas não é. Por várias razões, uma delas é o imposto de importação.  O preço que o consumidor tem que pagar aqui é um absurdo. É muito mais caro que o consumidor americano tem que pagar. Às vezes encontramos produtos aqui no mercado local, 50, 80, 100% mais caro que no mercado americano. Não faz sentido. Então esse mercado com um nível de preço mais ou menos como o nível americano, seria um mercado multiplicado por cinco, dez. Por isso que muitas marcas, não só de perfumaria, têm muito interesse no Brasil. Porque tem muitas pessoas, tem muito potencial, mas para o nosso mundo de luxo infelizmente esse mercado é muito pequeno. Mas o dia que o governo entender que tem que começar a baixar os impostos para ter mais negócios e mais ingressos também… Há poucos países assim como o Brasil. Acho que o Brasil, a Índia e também a República Dominicana têm impostos proibitivos. Uma loucura. Então com um nível de preços bom para este mercado, este país seria um dos mais fantásticos. Já é bom, mas poderia ser muito maior.

8 – Então a título de comparação, quanto se pagam de impostos na Índia e na República Dominicana?

Entre 80 e 100% de impostos de importação. São países com menor potencial que o Brasil. E eles também têm problemas de impostos, problemas fiscais e no Brasil há ainda um problema grande de burocracia, assim como meu país, a França e isso é  muito difícil para se fazer negócios. É uma pena. Então tem que ter muitas reformas no Brasil para fazer esse país possibilitar bons negócios. Tem bons negócios, mas poderia ser muito, muito melhor. As pessoas nem se dão conta do quanto poderia ser. Com uma reforma fiscal muito importante seria muito melhor para todo mundo.


9 – O sr. acredita que uma abertura maior do mercado brasileiro, com taxas de importação menores possibilitaria um crescimento maior do mercado, sem interferir no crescimento da indústria nacional?

É isso. É preciso que haja uma abertura maior dos mercados de maneira geral na América Latina. É necessário talvez que o Brasil seja o primeiro mesmo. As pessoas aqui têm medo que a indústria nacional vá perder se abrir mais o mercado. Mas é o contrário. Já aconteceu em muitos países. Na Coréia do Sul, há 25 anos era igual ao Brasil. O país tinha taxas de importação muito altas, mas finalmente elas começaram  a baixar e a coisa melhorou muito por lá.

Quando você tem competência, os concorrentes só ajudam. Se você não tem concorrente, porque melhorar o sistema de produção? Para mim concorrência é fundamental, importante, saudável. Tem que haver. Haveria inclusive mais trabalho para o povo brasileiro. Então é uma pena que o Brasil ainda não entenda isso.


10 – Na verdade as coisas já melhoraram muito a partir de 1991, quando começou a abertura de mercado para os importados…

Estava tão fechado. Antes era fabricação aqui, local. Não havia nada de importação.Com certeza passou de 100por cento fechado para mais aberto. Mas o mais aberto está muito longe de muitos mercados, até mesmo da própria região (América Latina). No Chile, por exemplo, para importar um produto você paga 6 a 8%. É muito melhor. Você se concentra na venda. Dessa forma, o Chile que é um mercado muito pequeno – tem 14 milhões de habitantes – ganha com o volume, o que é muito importante. Então o Brasil tem potencial para tudo, em geral. Eu que morei aqui nesse país, eu sempre fico frustrado. Quando é que vai chegar o futuro deste país? Há muitos anos que se fala do potencial do Brasil, que o Brasil é o país do futuro. Eu gostaria de saber quando vai ser este futuro. Quando vier este futuro, nós vamos investir muito no país, mas muito mais do que as pessoas possam imaginar. Então onde é que as empresas estão investindo agora? Na Ásia, na China. Todo mundo está colocando milhões de dólares na China. A Guerlain é hoje número 9 no mercado da China. Mas estamos investindo como você não imagina… Estamos lutando pela participação de mercado.

11 – Das Américas praticamente você está trabalhando nos Estados Unidos, mais fortemente?

O Caribe também é muito importante para nós. As pessoas do mundo inteiro saem de férias e vão para o Caribe. Americanos em geral, europeus, asiáticos também. É um mercado muito interessante e a Guerlain é muito forte lá. O preço é um pouquinho mais baixo que no mercado americano. É duty free, como os aeroportos daqui, por exemplo, da região e a gente tem também as ilhas francesas lá: Martinica, Guadelupe, Guiana, que não é uma ilha, mas a gente tem grande força lá. Então temos uma grande força, mas realmente a América Latina para nós não representa muita venda, mas mesmo assim com novo produto, tem muito negócio para fazer. Gostaríamos de fazer muito mais, mas vamos nos contentar com isso e vamos crescer dentro das circunstâncias.  De forma saudável, sem fazer loucura, sem mandar mercadoria para todo lado. Tem que controlar. Nossa marca é seletiva. Nosso público também espera isso da gente. Então é uma responsabilidade.