1 –
O site da Abihpec, agora em inglês tem sido efetivo em seus propósitos?

O site da Abihpec existe há três anos, mas só agora ele tem atualização constante, em português e inglês. Tem tido maior número de acessos e também maior tempo de consulta. Está cumprindo sua função de informar nossos 360 associados de todo Brasil, integrando-os e também trazendo visitantes internacionais interessados nesse mercado. A partir de Março deverá haver um incremento ainda maior com uma versão dele em espanhol, o que vai facilitar nossa comunicação e integração com países da América do Sul, principalmente.

2 – Uma notícia recente informou que os produtos de Higiene Pessoal tiveram um aumento nas vendas em virtude dos preços reduzidos, da queda do dólar e da redução no preço de insumos importados. Isso é verdade?

O segmento de Higiene Pessoal, para começar, não depende de insumos importados. Estas razões levam em conta apenas uma parcela da questão, já que nós conseguimos agregar Pis/Confins como crédito no mês de abril, nós conseguimos reduzir a base de cálculo do ICMS em Setembro, eliminamos o IPI de protetores solares e papel higiênico em Dezembro. Quer dizer, esses componentes eu diria que são mais importantes que a queda do dólar na baixa dos preços de nossos produtos.

Além disso, o mercado é extremamente competitivo – se o considerarmos hoje como um todo, ele representa R$ 33 milhões no preço ao público. Com 1% desse do mercado de higiene pessoal e perfumaria você faturaria R$ 3,3 milhões por ano. Seria já uma grande empresa. Então a disputa por esse mercado é muito grande. Por isso a concorrência é acirrada. Quer queira, quer não as empresas acabam tendo a necessidade de repassar os preços desses benefícios.

A gente atribui a esse crescimento fantástico do mercado em 2004 – de 16,56 em termos de volume – à possibilidade que o setor teve de não ter necessidade de reajustar seus preços e com isso o consumidor teve acesso a produtos mais baratos, apesar da inflação e do aumento de custos.
 
3 – E quais foram os resultados das exportações?

Foram excelentes. Nós iniciamos o ano trabalhando com uma perspectiva de crescimento de 20% nas nossas exportações e encerramos com 33%. Foram US$ 332 milhões em valor, o que representou um crescimento de 36,08%. Passamos a exportar para mais de 130 países. O saldo do superávit, que ano anterior foi US$ 94 milhões, este ano foi para US$175 milhões, ou seja, um crescimento de quase 80%, isso porque as importações tiveram crescimento de somente 4,31%.

A política cambial brasileira não está favorável para as exportações, mas as indústrias hoje estão maduras o suficiente para entender que isto é conjuntural, não vai perdurar por muito tempo. Esperamos que o governo tenha bom senso e possa rapidamente reverter essa política econômica, que é catastrófica.

4 – O Ministro do desenvolvimento da Indústria e Comércio, Luiz Fernando Furlan, disse recentemente em entrevista, que a queda do Câmbio começava a preocupar. Em que essa queda começa a preocupar para as exportações do setor?

Sem dúvida é preocupante. Mas o empresariado está consciente de como é difícil construir, estruturar e manter essa rede para exportarmos, divulgarmos o país. O nosso setor, o mundo nem nos conhecia. Para se montar uma rede de divulgação, por exemplo, com jornalistas internacionais é preciso conhecer os veículos que possam repercutir. Tudo isso é importantíssimo, portanto não se pode abrir mão de tudo isso por causa de uma conjuntura de câmbio desfavorável.

Felizmente o empresário tem bom senso para não desestruturar essa rede.Ele tem limites e está engolindo, mas continua investindo nesse caminho.

5 – Como o Sr. avalia a meta de inflação estipulada para este ano?

O empresariado brasileiro já enfrentou tanta loucura. Um grupo pequeno de pessoas do governo estipula metas e não discute com a sociedade, que deveria ser consultada, especialmente a classe empresarial, os banqueiros a classe industrial. A sociedade deveria fazer parte dessas discussões que lhe dizem respeito. A iniciativa privada e a sociedade como um todo deverá se desdobrar muito para lhe dar com as conseqüências de uma meta de 5,1 de inflação.

6 – Como os ativos da biodiversidade brasileira poderiam ser comercializados para a indústria cosmética brasileira?

A nossa preocupação é no sentido de que possamos incorporar cada vez mais óleos, extratos, componentes ativos oriundos da nossa biodiversidade nas formulações cosméticas brasileiras. Eles são praticamente inexplorados. Nós temos 250 mil espécies na nossa biodivesidade. Talvez hoje, no setor de cosméticos se use 30, 40%. Há 3 , 4 anos atrás esse número era menor ainda, cerca de 10%. Já temos hoje pesquisadas mais de 250 espécies que poderiam ser incorporadas nas formulações de nossos produtos. Então, temos um imenso potencial para que possamos caracterizar uma personalidade para a nossa indústria e isso é um fato bastante interessante.

Para que não haja uma exploração predatória, para que nós possamos ter um diagnóstico mais claro do potencial, conhecer safra, conhecer ciclo de produção, meses que podem ser processados e explorados, a empresa fazer isso individualmente ela tem uma força. Ela fazer isso através de uma entidade, ela tem outra força. Então, esse é o nosso papel, buscar de um lado conscientizar os nossos associados de que comprem produtos, mesmo que sejam um pouco mais caros, mas comprem produtos que sejam certificados, com exploração não predatória, em vez de comprar produtos que, eventualmente sejam mais baratos, mas de empresas que não tenham essa consciência, que comprometam o meio ambiente. Se o empresariado assim proceder, teremos anos, séculos, de uma perspectiva de explorar, no bom sentido, os produtos da nossa biodiversidade. De outro lado nosso papel é também o de conscientizar as autoridades do tamanho e do potencial do nosso setor, que ainda é pequeno. Só o setor madeireiro exportou US$ 4 bilhões o ano passado. Então eles têm força monetariamente falando, mas temos que nos sinalizar com as perspectivas grandes que temos para o nosso futuro. Em cinco anos as nossas exportações cresceram 97,5% de 2000 a 2004. Esse é um número expressivo, significativo.

7 – Quais são as expectativas para o setor este ano?

Continuar crescendo. Apesar das dificuldades de câmbio esse ano, nós estamos trabalhando com uma previsão de crescimento esse ano de 18 a 20%, enquanto que o país está trabalhando com uma previsão de crescimento de 8% 10%. Estamos otimistas em relação ao volume que nós venhamos a exportar. Tanto em 2005 quanto 2006. Precisamos mostrar para as nossas autoridades que este é um mercado interessante. Mal estamos arranhando o verniz do mercado internacional. O Brasil pode. Tem um grande potencial. Mas precisamos de uma legislação que facilite, para que pequenas e médias empresas tenham a chance de exportar, de comprar insumos da biodiversidade brasileira sem tanta complexidade.

Que as exigências para a preservação do meio ambiente não sejam tão inflexíveis Na política de meio ambiente hoje, o acesso a insumos praticamente só é possível a grandes empresas. A lei que está para ser regulamentada, que envolve a biotecnologia, envolve os transgênicos. Estamos todos no bojo dessa lei, que sinaliza para exigências tais, que o pequeno e médio produtor não consiga ultrapassar essas barreiras. Se ele quer comprar 10 kg de óleo por mês para colocar em alguns produtos, ele precisa preencher tanto formulário, tem que preencher tanta coisa tem que assumir tantos compromissos, que não vale a pena!
Então, cabe a entidade lutar para que essa lei venha a atender o interesse de todos e não seja privilégio de poucos.

8 – Como foi recebida no ano passado a redução de vários impostos pelas quais o setor vem lutando há tantos anos?

Você imagina, quer que eu diga o quê? Foi ótimo, imagina. Ainda assim há contradições. Sabemos que hoje a economia informal é maior que a economia formal. Então temos muitas empresas que por uma questão de sobrevivência se vêem na situação de trabalhar sonegando impostos. Para muitas empresas essa situação não é boa. Vimos ao longo desses anos mostrando ao governo que, se ele reduzir as taxas não vai perder. O mercado vai crescer e ele vai ganhar mais: no volume, na competitividade, nos empregos que geraria, no aspecto social, na geração de renda…

O setor está deixando de ser visto como um mercado de supérfluos. O desenvolvimento tecnológico do setor acaba por agregar valor social aos produtos, como é o caso dos protetores solares, ou dos produtos de higiene pessoal – 65% do faturamento do setor -, por exemplo, que evitam doenças infecto-contagiosas  e têm uma função social importe.

9 – E como estão os preparativos deste ano para Bolonha?

Este ano vamos para Bolonha com 32 empresas. O ano passado levamos 31 – 60% são empresas novas, 40% são empresas que já estão bem consolidadas, com estrutura montada para o mercado externo. Sempre há uma reciclagem. Mas este ano estamos fazendo um salto de qualidade. Vamos trabalhar com estandes de 16 m2. Estamos oferecendo aos expositores um crescimento de 70% a mais em espaço, praticamente pelo mesmo preço. Isso significa que os produtos estarão mais bem expostos, os estandes podem ficar isolados e as empresas poderão se projetar melhor, sem a padronização dos anos anteriores. Estaremos também numa área diferente. Estávamos numa tenda. Agora estamos indo mesmo para o pavilhão de perfumaria.

A Cosmoprof de Bolonha é altamente disputada, visitada por mais de 130 paises. Então, a conquista de espaço também, dá uma sinalização clara do papel que os próprios organizadores da feira enxergam na indústria brasileira.

10 -Os jornalistas o que eles pensam do nosso mercado cosmético. Que somos exóticos ou já nos respeitam como uma indústria capaz de produzir verdadeira tecnologia?

Olha, produto exótico exige tecnologia. Você não pode fazer um óleo, um extrato da nossa biodiversidade se você não incorporar tecnologia nele, se os processos de armazenamento, industrial, não forem adequados. É um processo igual a qualquer outra matéria prima. A cada ano é uma grata surpresa para quem se envolve com a indústria brasileira. A gente sente isso. Os jornalistas se interessam mais, os importadores.
E os números estão mostrando. Será que as exportações mundiais de higiene pessoal perfumaria e cosméticos cresceram 36%? Evidentemente que não. O mercado mundial não cresceu 36%. Então o que aconteceu. O mercado mundial está perdendo. Estamos tirando o espaço de alguém, US$ 40, 50, 60 70 billhões ao ano. O número talvez não seja significativomas hoje já somos o maior mercado exportador da América Latina. Nem o México que está muito próximo aos Estados Unidos exporta volumes semelhantes ao que o Brasil exporta.

Acho que jornalista que não prestar atenção nos movimentos que o Brasil está tomando, não está enxergando o mercado.

11 – O Sr. detecta um interesse das empresas internacionais pelo Brasil?

É muito complicado porque as fusões de empresas, hoje são sempre a nível de enxergar uma marca mundial. A Unilever não vai querer comprar assim por hipótese, uma Natura um Boticário, porque são empresas que estão aqui e em mais alguns poucos países, mas estão aqui. A Unilever tem que olhar o mundo. Então as empresas brasileiras têm que se projetar nacionalmente. Até para despertar o interesse de empresas que possam compra-las. É um caminho necessário. Lógico que há nos EUA uma fabrica pequena que eventualmente esteja interessada em comprar uma empresa brasileira. O mercado brasileiro é interessante, um bom mercado. Mostre um mercado que cresceu 16,56 % de volume. Nem na China. Veja se os números da China em perfumaria e cosméticos é igual ao nosso. Com certeza não é. Então o mercado brasileiro é um mercado interessante. Mas é preciso conhecê-lo. É complicado e difícil entrar, mas sempre há quem queira entrar.