1 – O que a Abihpec – Associação Brasileira do Indústria de Higiene Pessoal, Perfumaria e Cosméticos – pensa em fazer ou está fazendo para orientar as empresas do setor quanto às medidas necessárias a serem tomadas diante do Aquecimento Global?

A Abihpec tem uma Diretoria de Meio Ambiente há quatro anos. Eu mesmo tive a iniciativa porque entendia que essa área seria sem dúvida nenhuma extremamente importante e passaria a fazer parte, no futuro, das principais decisões das indústrias do setor.

Ainda não temos leis nacionais que regulamentem as indústrias, mas cada vez mais essa preocupação existe, seja com a conscientização da escassez da água e a necessidade de sua reutilização ou tratamentos. Seja com o despejo de resíduos industriais no esgoto, que é o que acontecia. Hoje a lavagem dos tambores e recipientes de vidro, plástico ou carro pipa, onde são colocadas as matérias primas ou que as empresas as recebem, sempre acarreta em resíduos. Então foi feita a conscientização de nossos associados para que eles viessem a incorporar esses métodos de boas práticas de fabricação e preservação do meio ambiente antes que isso se tornasse lei.

Temos o nosso Guia de Produção Mais Limpa, uma parceria entre a Abihpec, a Cetesb – Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental, ligada à Secretaria do Meio Ambiente do governo do Estado de São Paulo – e o Setor Privado, em que há um consenso entre o que está escrito, a Cetesb e a iniciativa privada do nosso setor evitando assim que o manual fosse algo fora da realidade do setor, deixado numa prateleira. Ele efetivamente contém práticas que estão em sintonia com o setor. Inclusive, conseguimos segmentar esse manual. A Cetesb o considerava como um todo e obviamente há uma diferença muito grande entre uma fábrica de sabonetes, em que a produção envolve caldeiras com composições químicas, para tornar uma massa de sebo animal, matérias-primas e perfume em um sabonete e uma perfumaria, que só tem um tambor com álcool, o misturador e uma envasadora, cujos riscos são menores, por exemplo, que uma empresa que fabrica esmaltes ou tinturas para o cabelo. Assim, conseguimos que equipes da Cetesb visitassem as fábricas por segmento e até ganhamos prêmio de revistas especializadas em meio ambiente.

Hoje, depois de dois anos da implantação desse manual de boas práticas estamos fazendo o levantamento nas empresas de nosso setor para verificar o benefício que esse guia trouxe para elas, através de questionários de avaliação.


2 – A Abihpec trabalha no mesmo sentido também em relação à reciclagem de materiais?

Estamos desenvolvendo um projeto de reciclagem com cooperativas, há mais de um ano e em parceria com o CEMPRE, associação empresarial dedicada à promoção da reciclagem e gestão integrada do lixo, que nos recomendou o Estado de Santa Catarina, onde haveria uma concentração maior de cooperativas já instaladas e as prefeituras locais. Através das prefeituras localizamos as cooperativas fizemos uma parceria com o SESC – Serviço Social do Comércio – da região e fomos procurados pela Fundação Banco do Brasil que entrou como nossa parceira nesse projeto aportando recursos. Além disso, temos cerca de 25 empresas participando também.

A idéia é reciclar embalagens de diversos tipos, de diversos setores para devolver esse material reciclado à própria indústria como matéria-prima.

Então, capacitamos todas as cooperativas, com aulas e orientações do SESC para que eles aprendessem como funciona a coleta seletiva, quais são seus critérios. Quatro municípios se habilitaram e se credenciaram para participar do projeto. Capacitamos estas cooperativas participantes com instalações adequadas às exigências ISO, normas de limpeza. Compramos maquinário, entre mesas e  esteiras para a seleção do material que pode e que não pode ser reciclado e as  máquinas trituradoras para  que o material se transformasse em grãos e fossem ensacados para voltar às empresas como matéria-prima.  Para algumas empresas fornecemos até o caminhão para que elas pudessem fazer o recolhimento dessas embalagens. Estamos inclusive anunciando na TV local para conscientizar a população sobre a necessidade de reciclar. Estamos neste primeiro passo consolidando esse processo.


3 – Porque a Abihpec escolheu esta abordagem para tratar do assunto reciclados?

Nós entendemos que cedo ou tarde haverá exigências por lei, decreto, seja lá qual for o caminho que o governo brasileiro venha a adotar. Quando esta lei for regulamentada, a sociedade será convidada a dar a sua contribuição. A maioria dos setores que eventualmente venham a participar desse projeto vai opinar de diversas maneiras. A Abihpec terá um projeto que funcionou, um modelo que poderá ser implantado e regulamentado no Brasil. No entanto, ainda estamos na fase conclusiva, verificando onde possa haver dificuldades para que possamos aprimorar o projeto. Quando ele estiver funcionando perfeitamente poderemos levá-lo para outros estados. A demanda é da própria indústria de plástico, vidro, alumínio, dos fornecedores do nosso setor que vão absorver esses materiais reciclados.

Nosso próximo passo é vender, de estabelecer essa cadeia para implantar o ciclo todo. E para obter maior valor agregado, mostrar que as cooperativas seguem princípios e norma ISSO, não aceitam menores de idade (e com isso já tivemos problemas difíceis de resolver diante das carências apresentadas).


4 – E quanto a entrada embalagens cosméticas no país, a Abihpec tem algum modelo parecido com o Ponto Verde ou Selo Verde que existe em alguns países e que determina inclusive valor de mercado aos produtos descontada a conta da reciclagem da embalagem?

Não sei qual será o modelo que o Brasil adotará. O conceito da Abihpec é que toda a sociedade esteja envolvida, seja o fabricante das embalagens, sejam os envasadores, o comércio, o consumidor ou o município que está sendo beneficiado de uma certa maneira pela arrecadação de impostos, geração de empregos. Ele é o que faz essa coleta de lixo e encaminha de uma certa maneira para as cooperativas.

Esse material granulado produzido pelas cooperativas será vendido para os fornecedores para voltar a ser uma embalagem nova. Quanto mais a cooperativa souber selecionar e distinguir o tipo de plástico de maneira seletiva, maior o valor. Se ela ensacar todos os diferentes tipos de plástico juntos, esse material valerá menos porque será um produto de categoria inferior.

5 – O sr acha que certas tecnologias que decompõem embalagens e sacolas plásticas já existentes no mercado podem neste momento atender a essa urgência por medidas de reciclagem?

Espera-se realmente que haja uma evolução nessa área com produtos mais nobres que possam facilitar esses processos de decomposição e se autodestruir. Mas acredito que muitos deles ainda dependam das condições ambientais, da compostagem para a sua decomposição. Ainda não chegamos a ponto de deixar uma embalagem em um lugar qualquer e ela se decompor em dois anos. Por enquanto é tudo um processo.

6 – O Brasil tem uma categoria de mass market muito forte e de Semi-Prestígio também que estão despontando nos mercados internacionais. O que seria a nossa categoria de prestígio? Seria o luxo da biodiversidade brasileira tratada com processos de sustentabilidade?

Na verdade trata-se de um processo de evolução. Obviamente que o uso desses processos oriundos da nossa biodiversidade, legalmente extraídos ou que atendam de forma correta os critérios sociais e ambientalmente justos, com toda a comunidade tratada com direitos trabalhistas legalizados agregam valor aos produtos que são vendidos por preços mais elevados. Então há empresas que vendem o óleo de castanha com todas as certificações ambientais que acarretam em custos e o óleo é vendido por cerca de 30, 40% mais caro que o mesmo produto de outras empresas que o vendem sem qualquer certificação. O grande problema é sempre o da conscientização das empresas quanto a essa responsabilidade. Esse é um trabalho que estamos fazendo.

Temos uma biodiversidade sem dúvida invejável. Se formos gananciosos e quisermos obter lucro desprezando critérios ambientais e sociais, vamos estragar esse mercado, porque vamos incentivar a pirataria, a contravenção, só para comprar mais barato.

Quanto mais as empresas do setor tiverem consciência disso e repudiarem a compra desses produtos através do mercado e produção informal, maior a credibilidade e credenciamento vamos ter. E essa é na verdade uma grande oportunidade para o mercado brasileiro se posicionar no mercado internacional. Esse é o nosso segmento de prestígio. De você mostrar que o seu produto é composto de matérias-primas de uma rica biodiversidade, mas produzidos de maneira absolutamente criteriosa, que não agride o meio ambiente.


7 – Quanto e como a Abihpec está envolvida na produção de castanha do Pará certificada dos Índios Kaiapós?

Estamos tentando trazer nesse momento alguns jornalistas internacionais para levar ao Pará e verificarem com os próprios olhos como essas comunidades indígenas estão produzindo o óleo de castanha-do-pará de maneira sustentável, para que empresas internacionais possam se interessar pelo conceito de que existe esse óleo certificado disponível para ser incorporado aos produtos cosméticos. A produção deles já é em escala para o mercado interno. Além disso, estamos sendo procurados por outras aldeias indígenas para a implantação desse mesmo modelo, que na verdade foi uma idéia dos próprios Índios Kaiapós, da ONG Amigos da Terra. A Abihpec contribuiu para a divulgação da certificação do óleo de castanha-do-pará dessa aldeia – Terra Indígena do Baú – que já vem atendendo a demanda interna e prospecta a demanda internacional.

8 – A Abihpec tem algum projeto de conscientização das empresas do setor quanto ao controle da emissão de carbono na atmosfera?

Estamos trabalhando para fazer os cálculos de quanto o setor despeja de carbono na atmosfera e de quanto que ela contribui para o aumento do aquecimento global, para com isso definir um projeto de plantação de árvores para seqüestrar este mesmo carbono de volta, fazer o processo de equilíbrio.

Desde quanto gasto para ir daqui até Brasília, um cálculo para a sociedade de higiene pessoal, cosméticos e perfumaria. A idéia é transferir a função de plantar árvores para as ONGs que lidam com isso, como a SOS Mata Atlântica, levarmos os recursos relativos de cada empresa a elas e monitorarmos esse equilíbrio na recuperação florestal.


9 – No relatório anual da Natura há uma referência ao relacionamento que mantém com o Conselho de Gestão do Patrimônio Genético, agente importante na construção do marco regulatório da biodiversidade. A empresa deixou clara apesar de sua concordância com estes princípios, a sua percepção acerca da atual legislação brasileira sobre o tema – ainda inconsistente e carente de mudanças importantes e a favor de mudanças na legislação.  Quais seriam essas mudanças necessárias?

A lei de acesso ao patrimônio genético que está em vigor atualmente é de uma complexidade impressionante. Já estive com a Ministra do Meio Ambiente por tr~es vezes, fui na Casa Civil. A Natura praticamente me acompanhou todas as vezes. Isso é uma enorme dificuldade, porque primeiro eles estabelecem que querem ter uma participação , uma espécie de royalt em relação ao produto acabado e para eles terem acesso a essa participação é preciso estabelecer essa relação com a aldeia ou com a comunidade. Você tem que registrar isso no meio ambiente como se fosse uma Anvisa da área ambiental. É uma loucura.
O projeto está em vigor desde a época do presidente Fernando Henrique e o que nós entendemos, é que o governo está com isso alijando o acesso à biodiversidade brasileira às micro e pequenas empresas. Impossibilitando esse acesso para uma empresa que consome 5 litros, às vezes um litro por mês de um ativo da região, na formulação de seus produtos. Como é que um critério desses é estabelecido?

A Natura mostrou para a ministra alguns registros que ela conseguiu. Cada processo tem mais de meio metro de altura em páginas. Para a obtenção dessa documentação ela fez pelo menos 20 viagens à Amazônia e umas 15/20 viagens à Brasília. Como é que as micro e pequenas empresas teriam condições de fazer isso se tivessem que fazer estes processos individualmente. É uma coisa de louco.

Obviamente estamos nessa luta e entendemos que tenha que tenha de haver um controle menos burocrático  e no nosso ponto de vista, o certo é que essa certificação deva ser feita com as empresas fornecedoras dessas matérias primas da biodiversidade que atuam no país, como a Beraca, a Croda, a Cognis, a Chemyunion. Então, nosso ponto de vista é que elas é que tenham que se cadastrar para comercializar porque nós comercializamos produtos finais com os óleos essenciais dessas plantas.


10 – E quanto a produção de sabonetes de massa vegetal que já vemos no varejo, essa é uma tendência que não precisaria também de regulamentação?

De fato, daqui a pouco muitas empresas vão apregoar que suas formulações para sabonetes têm massa vegetal, quando na verdade os produtos apresentam apenas 10% de massa vegetal. É preciso um controle sobre isso, porque nas embalagens não vêm escrito quanto de massa vegetal cada sabonete tem. Assim o consumidor é induzido a achar que o produto é 100% vegetal. Nós estamos analisando a possibilidade de normatizar o uso dessa expressão para que as empresas possam divulgar o uso de massa vegetal em seus produtos, porque isso ainda vai crescer muito.


11 – O sr poderia nos falr um pouco a respeito do projeto de credenciar e premiar fornecedores?

É um projeto que credencia fornecedores com um Selo da Abihpec através de uma auditoria anual das empresas feita por um pool de auditores que a Abihpec está contratando. Esse projeto reduz custos para as empresas e facilita no reconhecimento de fornecedores.


12 – O que os critérios dessa auditoria levam em conta?

As empresas de produto final estão nos trazendo todas as suas exigências. Vamos juntá-las e harmonizá-las. Há questões sociais, no aspecto de funcionários, o aspecto de práticas de fabricação, aspectos ambientais. Se houverem exigências maiores, específicas, então vão estas correrão por conta da empresa que as requisitou e que deverá entender-se então com o fornecedor.  Houve premiação no ano passado e haverá todos os anos. Estamos avançando.


13 –  As empresas que participam do projeto de exportação da Abihpec estão totalmente habilitadas para exportar?

Fazemos todos os esforços nesse sentido. Desenvolvemos seminários e buscamos conscientizar as empresas de que é importantíssimo atender a todos os requisitos para exportação para fortalecer a imagem da indústria brasileira no mercado internacional. Estamos avançando muito nessa questão, no entanto, há casos que  deixam a desejar. Mas não cabe a nós selecionar as empresas. A nossa idéia é que o próprio mercado expurge, poruqe uma empresa que não dá valor a sua clientela internacional, que leva produtos sem rótulos traduzidos, não está num bom nível para atender seus clientes e é evidente que o próprio mercado internacional vai rejeitá-la. Uma empresa que ainda não está preparada para atender as exigências do comércio internacional está perdendo tempo e dinheiro.


14 – Quais são os movimentos em direção ao mercado internacional este ano?

Temos um comitê hoje, em que discutimos a estratégia para o mercado internacional. É ele quem decide o que deve ser feito. Então nós temos atividades bastante expressivas até o final do ano. Vamos à Polônia, Turquia, Dubai, nos EUA duas vezes – numa missão o projeto comprador  e vamos participar da feira de Las Vegas. Vamos fazer o projeto comprador aqui em São Paulo, trazendo de 16 a 20 compradores de diversas partes do mundo.


15 –  A área de exportação da Abihpec participará da feira de Cosméticos de São Paulo?

Não, não estamos mais na feira. É como um relacionamento: desgastou. Fica cada um para o seu lado.

Vamos fazer aqui no Hotel Intercontinental um encontro. A circular já saiu e estamos esperando a adesão de umas 50 empresas para participar desse projeto.  É em setembro, mas nem vamos coincidir com as outras feiras. Não tem nada a ver uma coisa com a outra. Vamos fazer um programa de imagem para fortalecer a imagem da indústria brasileira de cosméticos de uma forma geral.