A Givaudan multinacional de fragrâncias e aromas de origem suíça, veio para o país em 1927. Em 1949 instalou sua fábrica no país e, depois de uma parceira com a Roche e de construir um novo complexo industrial em1976, tornou-se independente em 2000. Atua com os maiores parceiros da indústria cosmética brasileira. Lúcia Lisboa, uma paulista formada em psicologia, com especialização em Comércio Exterior, coordena o Centro de Criação da América Latina da empresa, que desenvolve pesquisas sobre tendências na região.

 

1- Qual é o histórico de sua carreira e como você entrou para o setor cosmético?

Estou nessa área há quatro anos, com a Givaudan. Na indústria cosmética, para a parte de fragrâncias especificamente, desde 1997. Trabalhei durante 10 anos na área de embalagens de vidro.  Meu grande desafio nessa área foi entrar com a indústria vidreira nacional na França. Quando começamos a exportar alguns vidros da Wheaton do Brasil para o mercado francês, dei meu trabalho nessa área como uma etapa concluída em minha vida. Então decidi ir mais a fundo e passar para o conteúdo dos frascos. Foi quando comecei a trabalhar com fragrâncias.

Meu trabalho sempre foi voltado para a área comercial, mas na Givaudan o foco foi outro: com a parte de desenvolvimento. Hoje coordeno o Centro de Criação da América Latina.

 

 

2 – Qual o principal mercado para a empresa? E qual a importância do Brasil no ranking de interesse da Givaudan?

Regionalmente o Brasil é o primeiro mercado para a empresa. Seguido pelo México e pela Argentina. Globalmente a região da AL para a Givaudan é muito importante. As regiões da América do Norte e da Europa são mercados maduros. Internacionalmente que, na AL, Brasil e México são países de grande interesse para a Givaudan, assim como a Ásia, no que tange a Índia, a China e África.

 

 

3 –Qual a identidade olfativa nacional?

O Centro Criativo do Brasil tenta entender o consumidor na sua especificidade na América Latina e realmente existem grandes diferenças.

O mercado brasileiro vem buscando muitos acordes naturais, com enfoque à biodiversidade brasileira. Então vemos clientes brasileiros trabalhando com matérias primas da flora nacional, e a Amazônia está incluída nessas preferências.

Um dos pontos característicos do mercado brasileiro é o frescor. A mulher brasileira pede frescor na fragrância e ainda, que ela tenha boa fixação.

O mercado masculino por sua vez tem se modificado. Os homens estão aceitando notas mais quentes, o que não quer dizer doce e sim mais especiadas e amadeiradas, uma tendência neste mercado.

Os clientes internacionais passaram a valorizar essa biodiversidade. A L´Oreal está trabalhando com matérias-primas e ingredientes específicos da flora brasileira, da Amazônia, como o Cupuaçu, o Babaçu e outros, sendo inclusive trabalhados como cheiros para o mercado internacional. Temos recebido muitas solicitações de nossos clientes para esse tipo de produto.

 

4- Existe algum trabalho da Givaudan em relação à Biodiversidade?

Sim, um dos nossos cientistas Roman Kaiser, baseado na Suíça, desenvolveu o Head Space, uma tecnologia que busca capturar os cheiros da biodiversidade, sem causar malefícios à planta, com a planta in natura, sem arrancá-la.

 

5 – Como funciona a comercialização das fragrâncias para os mercados? Vocês têm fragrâncias desenvolvidas diferentes partes do mundo? Elas são oferecidas globalmente para cada empresa que os procura?

Trabalhamos de forma totalmente interativa com os nossos centros – em Nova York e Paris, com projetos daqui ou de qualquer outra parte do mundo. No entanto, existem algumas formas de trabalho: uma delas é trabalhar diretamente sobre a solicitação do cliente. Acionamos os Centros Criativos globalmente para buscá-la e assim atendê-lo.

A outra forma é a Pró-Ativa, ou seja, passamos a entender o consumidor e o que existe em termos de tendências. Temos um trabalho muito interessante que chamamos de Trend Setters. Buscamos dentro do caminho olfativo o que é tendência no mercado olfativo na América Latina. Testamos no Brasil, México, Colômbia e Argentina que cheiros os consumidores de um target específico se interessam. Passamos então a desenvolver as fragrâncias. O que acontece é que ficamos preparados para o desenvolvimento de algum projeto. No momento em que um cliente nos aciona solicitando uma fragrância para um determinado tipo de público oferecemos alguma coisa pronta, testada e que garante um resultado.

Além disso, trabalhamos com coleções: nós damos informações e instruções aos nossos perfumistas para desenvolverem coleções. Ou seja, fragrâncias que estejam prontas para serem utilizadas.

Basicamente 95% de nossas matérias-primas são importadas, o que faz com que nossas fragrâncias sejam reproduzíveis em qualquer lugar.

 

7 – Como tem sido trabalhar com o mercado brasileiro este ano?

A Givaudan tem participado de vários lançamentos no mercado brasileiro. A empresa está muito bem organizada para atender às suas necessidades e, sobretudo está entendendo o mercado com que trabalha, o que é um diferencial.

Estamos com um Departamento de Pesquisas de Mercado montado com um grupo sênior para entender o consumidor, saber sobre as diferenças na América Latina e como isso pode ser traduzido em fragrância. No México, por exemplo, a altitude requer dosagens maiores de substâncias para aumentar a explosão da fragrância.

 

8 – Quantos concorrentes a Givaudan tem no mercado brasileiro e o que ela apresenta como diferencial?

São 4 grandes empresas mundiais. São de grande porte e o que eu posso dizer é que a Givaudan tem o seu lema, que é Criar uma Vantagem Sensorial e o nosso cliente e consumidor, quando estiver usando um produto Givaudan tem uma vantagem sensorial.

 

9 – Quais são as metas da empresa para 2004?

Nossas metas são bastante arrojadas. Trabalhamos sempre com metas regionais na América Latina. A partir do ano 2000 houve um investimento muito grande em talentos e no desenvolvimento de uma organização para AL. A profusão de projetos que temos recebido mostra o resultado desse trabalho. Queremos crescer dois dígitos em 2004, assim como em 2003 e estamos trabalhando para isso.Temos uma equipe consistente e talentosa, enfocando nas principais áreas, trabalhando pró ativamente, a fim de antecipar tendências para aflorar o mercado, fazer com que ele esteja pronto para receber novidades.

 

10 – E quais seriam estas tendências?

Trabalhamos justamente com Trend Trackers que são equipes que viajam pelo mundo em busca de novos cheiros. Esse trabalho é liderado pela Europa e difundido globalmente, mas o estudamos e traduzimos para os mercados locais.

 

11- A Givaudan mantém projetos de preservação ou projetos sociais nesses mercados?

No ano de 2003 começamos um trabalho no sentido de desenvolver e capacitar comunidades carentes com trabalhos em marcenaria e marchetaria, na ilha de Cotijuba, em Belém do Pará. As comunidades passaram a produzir objetos exclusivos usando sobras de madeiras, os quais presenteamos aos nossos clientes.  Mas, no decorrer do projeto, as pessoas da região passaram a produzir para outras finalidades, o que se transformou em benefícios para as pessoas da região, que passaram a ganhar dinheiro com esses ofícios e a ter uma melhora considerável de vida.

Mas trabalhamos com responsabilidade social desde 1998. Com vários e diversos projetos: música na escola, biblioteca, reciclagem do lixo, oficina de sucata, oficina de chocolate, entre outros. Nossos funcionários estão envolvidos diretamente nesses projetos.