1 – Porque a Kenzo escolheu ter publicidade interna, própria e não ter uma agência?

A razão principal foi a de se permitir ter uma criação extremamente original e completamente com a assinatura Kenzo e coerente, porque as pessoas que trabalham conosco são pessoas que estão por trás da marca e portanto conhecem a marca Kenzo muito bem.

A outra razão, eu acho, é que as criações são fortes, quando elas são feitas com todas as pessoas de uma pequena equipe que se conhece bem, de uma marca que elas fazem. Diferente de quando elas são feitas por agências de publicidade onde existem sempre  mudanças feitas com a agência, além de questões políticas ou questões pessoais que fazem com que, a meu ver as criações sejam menos fortes. E a última razão é que como sou fotógrafo e cineasta, não preciso de uma agência de publicidade.


2 – Como diretor de criação da Kenzo Parfums, o sr. também interfere na criação dos perfumes e das embalagens? Como funciona esse processo de criação?

Na verdade trabalho sobre um conceito, uma história com imagens e música para poder exprimir todas as sensações possíveis que ocorrem quanto ao perfume sobre o qual trabalho. Em seguida vou ver o designer e o criador do perfume para saber melhor sobre o seu conceito e história e depois vou montar alguma coisa. Então me volto com toda a dedicação sobre a técnica mas unicamente para ser muito preciso, sobre as sensações e as emoções que evocam o perfume.

Por exemplo, no caso de FlowerbyKenzo a idéia foi sobre uma flor  que é extremamente frágil, mas forte. Todas as frases do filme foram desenvolvidas à base de conversações com o designer e o perfumista.

A empresa está sediada em Paris e não no Japão, assim nossa equipe é bem pequena e não há qualquer restrição de criação vinda de qualquer parte. É muito simples e todas as decisões vem de Paris. Então basicamente o que fazemos é: assim que o conceito está formulado claramente, colocamos em palavras e imagens. Algumas vezes até trabalho no story board do filme escolhido e mostro a sinopse dele ao perfumista e ao designer do frasco para fazê-los trabalhar nessa idéia.


3 – Como é que uma empresa global, de origem Japonesa, sediada em Paris tenha processos de criação simples?

É interessante porque realmente trata-se de uma grande empresa, que está presente no mundo todo, muito internacional. Mas internacional para as vendas, com sua presença em outros países. No entanto, no que se refere à criação ela é muito pequena e muito centralizada. É só em Paris. A única coisa diferente é que às vezes tentamos criar com outros designers que estão sediados fora de Paris. Para lhe dar um exemplo para a nova fragrância masculina que lançaremos no ano que vem, vou trabalhar com um designer japonês nesse projeto específico. Para Kenzo Amour, o designer estava sediado em Nova York. Então também é interessante fazer o trabalho com pessoas de outras partes do mundo, mas centralizado no endereço da empresa em Paris.


4 – Quanto tempo leva para que uma idéia, por exemplo a dessa nova fragrância masculina, seja formulada integralmente: fragrância, embalagem, a publicidade…

Desde o começo do processo, até o momento que ela vai para o mercado é de quase dois anos. Um ano para a sua criação e um ano para o seu processo industrial. É um longo trabalho com designers e  perfumistas.


5 – Qual a importância da América Latina, especialmente o Brasil para Kenzo Parfums?

A América latina é muito importante. A América do Norte não é tão importante para nós. Somos mais fortes na Argentina e no Brasil.

6 – Como você escolhe os designers?

A escolha é diferente todas as vezes. Tentamos encontrar os designers certos para projetos específicos. Assim, não há uma regra, por exemplo, a fragrância masculina de que lhe falei a pouco terá designer japonês porque o conceito da fragrância tem muita conexão com o Japão e o Oriente. Foi muito interessante trabalhar com profissionais japoneses.


7 – São vocês que decidem o quanto de inovação e tecnologia um projeto específico deverá ter?

Depende do projeto e a parte técnica do projeto é muito complexa para cada perfume, cada spray, cada design. Kenzo Amour, por exemplo, tem um frasco com aquela forma… Nossa dificuldade foi encontrar um material plástico de grande qualidade. Encontramos um plástico cheio, compacto, muito pesado. Outra coisa que foi especial para Kenzo Amour em que gastei meses para que isso acontecesse foi a cor no plástico que não é apenas uma. Há mudanças sutis. Ela é laranja na essência, mas muda para laranja vivo, que se move. Para fazer isso acontecer, houve um processo especial para colocar a cor de uma maneira muito viva, que no entanto não foi específica para Kenzo, mas houve um ponto técnico muito alto.

8 – Detalhes tão específicos fazem parte de um projeto de ser especial?

Não exatamente. Tentamos escolher um projeto que corresponda melhor ao que nós procuramos e depois nós pensamos em como vamos fazê-lo tecnicamente porque freqüentemente, muito freqüentemente, para obter o que buscamos há complicações técnicas que não vimos no princípio.

9 – Existe uma comunicação complexa entre fornecedores e designers para a realização de um projeto? A técnica deve atender a criação ou a criação deve existir em função das técnicas mais ou menos disponíveis no mercado?

Não penso em restrições técnicas, porque se você trabalha pensando nisso, nisso e nisso, em coisas físicas, então você nunca inventa coisas novas. Então, o que fazemos é geralmente o contrário. Trabalhamos sem muitas restrições, trabalhamos apenas pelo objeto ideal e então vamos ver nossos fornecedores e pensamos com eles em como podemos produzir a peça. Tentamos encontrar com eles as respostas corretas. Algumas vezes dá certo, outras não e aí temos de mudar o design. Isso acontece. Mas não muito freqüentemente, porque os impelimos a fazê-lo e eles querem fazê-lo porque há muito envolvido em Kenzo, porque o trabalho é muito criativo e também muito variado. Geralmente eles gostam “de fazer acontecer”. É mais por aí que gostamos de trabalhar.

10 – E quanto ao frasco curvo de Flowerbykenzo, por exemplo,  há nele alguma técnica específica?

Não foi difícil conseguir, mas para obter a tampa foi, por causa da altura dela e para mantê-la no mesmo eixo do frasco.

11 – Não seria muita responsabilidade criar, desenvolver e ainda fazer o filme da campanha?

A responsabilidade não é toda minha, é algo que divido com um grupo pequeno, o que torna as coisas muito interessantes porque quando você é muito pequeno todos estão envolvidos no processo de criação, o que torna a coisa interessante. Estrutura pequena ajuda a fazer coisas diferentes.

12 – Como você faz para criar a partir de um briefing e para explicar a idéia do que vocês têm em mente aos fornecedores?

É só uma questão de como conversamos com eles. Mas, também, é uma questão de emoção, porque se for apenas uma questão de dinheiro eles podem fazê-lo mas não tão bem como quando eles estão envolvidos no projeto. Por exemplo quando temos um briefing para um novo fornecedor, para uma pequena parte do projeto, a válvula ou algo assim. Apresentamos a eles todo o projeto, para que eles possam entender  o todo. É realmente uma questão de relacionamento.