Uma fragrância me chama atenção quando percebo que estou sentindo algo que tem valor agregado, que tem personalidade e, acima de tudo, tem aura.

Marianna Bachi, Givaudan, Gerente de Perfumaria Fina para a América Latina

1) Como você vê a evolução da perfumaria brasileira? Você acredita que o Brasil tem uma personalidade olfativa própria, ou que ainda continua com o estigma de “imitar” seguir a perfumaria internacional?

Sem dúvida alguma a perfumaria do Brasil evoluiu muito nas últimas décadas; quando olhamos os resultados (físicos e financeiros) do mercado mundial e as previsões para os próximos anos vemos que é notória a atratividade do país nesse segmento.
Vale ressaltar que esse resultado não foi obra do acaso e sim de um trabalho intenso de todas as empresas que atuam nesse segmento.

Já no início da década de 90 algumas empresas brasileiras – atentas aos movimentos e prevendo um crescimento do segmento de perfumaria – efetuaram um trabalho intenso em busca dos grandes fornecedores e parceiros internacionais com o objetivo de se preparar para a abertura do mercado e mostrar para o consumidor brasileiro que era possível fazer uma perfumaria brasileira de qualidade.

Hoje em dia, praticamente todas empresas que trabalham para os grandes grupos mundiais também trabalham conosco e nos vêem como grandes e importantes parceiros no segmento de perfumaria mundial. Hoje podemos dizer que o Brasil já ditou tendências nesse mercado tanto no quesito embalagem quanto olfativo.

Percebo que houve um aumento da qualidade e grande melhoria na criatividade olfativa dos produtos brasileiros. Existe sim uma personalidade olfativa brasileira, com algumas peculiaridades, como é o caso da lavanda, que o brasileiro adora e é bastante adequada ao nosso clima predominante.

Com relação ao mercado dito como “imitação”, isso não ocorreu ou ocorre somente no Brasil. Mesmo empresas americanas ou européias o fazem em busca de fragrâncias “aparentemente” de sucesso mais rápido. Mas precisa haver uma adequação de marca e público feitas com muito critério.

Posso afirmar, no entanto que, o que se procura hoje, é maior criatividade, identificação de posicionamento de marca e caminhos olfativos. Deve-se atentar que nem sempre o sucesso olfativo sob uma marca o será sob outra. Isso dependerá de um conjunto de qualificações adequadas.


2) Como você descreveria a “avalanche” de lançamentos na perfumaria? Você acha que ainda há espaço para ser inovador? Qual seria sua sugestão?

A avalanche de mercado existe sem dúvida alguma. É só observar o número de lançamentos no mercado de uma maneira geral e verificar que ano a ano há um aumento de lançamentos em progressão geométrica. Entretanto, quando olhamos o ranking de mercado, percebemos que houve poucas alterações nos últimos 5 ou 10 anos. A pergunta que fica é: O que faz com que uma marca não se mova no ranking ou tenha pouca alteração? E o que faz uma marca entrar e se manter nesse difícil patamar de vendas?
Particularmente acredito que ficam ou entram aquelas que são fiéis ao seu posicionamento e que possuem um pensamento estratégico, bem definido, a médio e longo prazo, principalmente quando o assunto é imagem de marca.


Dionisio Ferenc – Diretor Geral, IFF
3) Como manter o mesmo nível de inovação alcançado por Malbec para satisfazer as expectativas do consumidor em termos de inovação e singularidade?

Malbec é sem dúvida um dos grandes cases do mercado brasileiro. Seu sucesso foi o resultado de muito trabalho, estudo e dedicação profunda para encontrar uma maneira de se diferenciar não apenas conceitualmente como olfativamente, superarando as expectativas de um briefing inicial.  Para manter a singularidade, só através de muito estudo e aprofundamento nos projetos.

Não existe fórmula. O que tem de haver é um esforço muito grande de todos os envolvidos para que estes comprem a idéia de um projeto e desejem ardentemente a superação.

Numa associação com as olimpíadas, acredito que se um atleta não tentar se superar e superar seu principal concorrente fazendo mais e melhor, jamais quebrará um recorde ou conquistará novamente uma medalha de ouro. Se considerarmos que ano a ano há uma quebra de recordes, a base fica cada vez mais acima.


Cristina Brito – Executiva de Conta, IFF
4) O que na sua opinião seriam as vantagens e desvantagens do canal franquia em relação à venda-direta dentro do segmento de perfumaria?

É muito difícil falar em desvantagens de um sistema de distribuição. O que precisa haver é coerência na forma de se trabalhar em cada um dos sistemas de venda e transformar as desvantagens em grandes oportunidades de trabalho.

Em relação aos sistemas de franquia, posso dizer que é extremamente adequado ao mercado de perfumaria, principalmente porque ele se vale de um local físico, onde o consumidor pode experimentar o produto envolvido por todo um ambiente. A perfumaria é uma categoria que trabalha muito no inconsciente. É emocional e envolve praticamente todos os sentidos, além do olfato e isso pode ser muito bem explorado num ponto de venda.

Nós do O Boticário temos um trabalho intenso de qualificação e treinamento da rede de franquias – a empresa tem 2200 franquias no Brasil, 50 lojas em Portugal, 5 lojas e 9 corners na Bolívia, 2 no Peru, entre outros pontos de comercialização no exterior, inclusive 430 pontos de venda no Japão e 30 no Oriente Médio – , que envolve toda a equipe de vendas. Dessa forma, acreditamos, o consumidor pode encontrar consultoras em todos os pontos de venda, não apenas treinadas, mas que entendem e vivenciam um produto de perfumaria, o que faz uma grande diferença.


5) Quais são os grandes desafios que o Boticário espera enfrentar em 2005?

Temos desafios todos os dias. Acho que o maior deles é trabalhar arduamente para superar as expectativas dos nossos consumidores e perseguir nossa estratégia de posicionamento de marca e da categoria, além de buscar um mix de produtos adequado a cada projeto para que estes reflitam a marca e agradem aos consumidores.


6) Quais são os desafios enfrentados no lançamento de um novo produto?

Não é possível generalizar, pois a cada projeto temos desafios diferentes e aí é que está o melhor, o que movimenta do negócio.
No entanto, um dos grandes desafios é não fugir do foco de cada projeto e conseguir um conjunto de qualificações adequadas a ele.
Finalmente precisamos garantir que toda a rede de franqueados e consultores conheça o produto e possa oferecê-lo ao consumidor de maneira própria.


Elena  Novas  – Diretora do Centro Criativo, IFF
7) O que mais capta a sua atenção numa fragrância?

É quando percebo que estou sentindo algo que tem valor agregado, que tem personalidade e, acima de tudo, tem aura. Tem expansão, mas ao mesmo tempo, consegue não ser invasiva a ponto de incomodar alguém. Pode ser uma fragrância pós-banho, mas tem de ter aura.

Não gosto de fragrâncias intimistas, tímidas ou pra dentro. As fragrâncias existem para serem sentidas. Um perfume é uma forma de se comunicar, é uma linguagem.

Marta Bagolin – Gerente de Marketing, Wheaton Brasil
8) Quais são os fatores-chave de sucesso para um lançamento de produto bem sucedido? Mais especificamente o que o fornecedor de embalagem de vidro pode fazer para agregar mais valor neste processo?

O principal é adequar as qualificações do produto com o posicionamento da marca. Parece uma equação muito simples, mas não é. É preciso pensar em todos os Ps de marketing (produto, preço, ponto de venda e promoção/comunicação). Se trabalharmos profunda e coerentemente com estes 4P´s já temos um bom caminho andado.

O que posso sugerir ao fornecedor de embalagem vidro é que tenha agilidade para conseguir implantar diferenciações como tratamentos e cores e que possa cada vez mais investir na qualidade do vidro, pois isso faz uma diferença brutal nos projetos, além de contribuir para a valorização do design como um todo. É importante ressaltar aqui o excelente trabalho que as vidrarias estão fazendo no Brasil.

9) Como você avalia a evolução do mercado brasileiro de fragrâncias frente à globalização?

Acho que a primeira questão inclui a resposta.

10) Na sua opinião, o homem  brasileiro está  assumindo o seu lado mais vaidoso e comprando mais produtos para cuidado pessoal, além das fragrâncias?

Quando verifico pesquisas nesse sentido, vejo que esta tendência é um fato, tanto no mercado nacional quanto internacional. Dentre os segmentos de produtos voltados especificamente para o homem, a perfumaria tem maior representatividade e, no meu entendimento, acaba servindo como porta de entrada para os demais produtos.

Quando analisamos o mercado de produtos para barbear (envolvendo o pré e pós-barba) embora bem menor do que o segmento perfumaria, o que percebemos é uma busca constante por produtos diferenciados de alta qualidade e performance. Atualmente existe uma grande diversidade de produtos para o homem com essas características.

Além dessa categoria percebemos que o homem vem buscando também produtos que possam tratar a pele de forma mais efetiva e se direciona para uma categoria que vai além do barbear: a de produtos de tratamento contra os sinais de envelhecimento.

É fato: o homem está procurando ano a ano entender melhor esse mercado. Nossa função é entender exatamente qual é a melhor forma para se trabalhar com esse consumidor.

Isabella Salton – Gerente de Marketing – Mahogany
11) Qual o peso e como as criações e lançamentos internacionais impactam no desenvolvimento dos lançamentos do Boticário?

O que fazemos é avaliar os mercados, tanto o nacional quanto o internacional, para entender as tendências e aprender sobre os consumidores. Não há um peso ou um impacto no desenvolvimento de nossos lançamentos. Utilizamos muito mais as referências de mercado como estudo. Mas dentro disso tenho que fazer o Boticário ser a marca que ele é, com a personalidade olfativa que ele tem.

cosméticos br
12) Não o impressiona o fato de marcas  mass market produzirem fragrâncias similares às do mercado nacional e internacional a preços bastante reduzidos? 

Isso não me impressiona e nem me assusta. É uma questão de adequação de produtos, marcas, e público-alvo.

13) O Boticário dispõe de e-commerce para vendas pela Internet. O Sr. acredita que a fidelização de consumidores propicia vendas na internet até mesmo de perfumaria?

Facilita para aqueles que gostam de fazer suas compras pela Internet e já conhecem bem os produtos que querem. Não tem problema algum. É uma facilidade. Mas o que percebemos é que vender perfumes está diretamente associado ao ambiente.

Sair de casa para escolher uma fragrância é um programa interessante. Você entra num ambiente ideal, com uma possibilidade imensa de produtos, com uma vendedora que propõe e passa informações sobre os produtos. É uma vivência que os consumidores apreciam muito.