Foto: Hugo Curtis

O cosméticos br entrevistou uma das mais conceituadas profissionais do mercado. Com passagens por Louis Vuitton, Dior, Givenchy e Kenzo e trabalhos premiados no Brasil como o frasco de perfume da Avon para a linha Luiza Brunet e  para as linhas Vinicius de Moraes – Amor e Poesia e Arca de Noé. É dela o design das fragrâncias feminina e masculina Egeu de O Boticário e no momento desenvolve várias embalagens para a Natura.

Com 36 anos essa francesa de Marselha miúda e com jeito despretensioso, que vive no Brasil há cinco anos apenas, já é uma profissional respeitadíssima no mercado. Diz sempre que não faz nada, não sabe nada e não apresenta seu port-folio porque acha que são trabalhos passados, que o que importa é o que está para ser feito, o futuro.

Nesta entrevista ela fala um pouco sobre a sua profissão e sobre o design de embalagens cosméticas do Brasil.

1 – Como você começou sua carreira?

Comecei na perfumaria, como diretora de produtos, já que eu tinha me formado em engenharia mecânica. Fazia tampas injetadas para o grupo LVMH. Um trabalho muito mais técnico. Fui trabalhar então para a Dupont, com o Surlyn e acabei me aproximando muito mais do design com a parte técnica que eu fazia para tampas e frascos. Na verdade eu viabilizava os projetos dos designers, como gancho entre eles e a produção. Foi assim que me aproximei cada vez mais da criação.

2 – Porque você deixou de lado uma carreira brilhante na Europa e escolheu vir morar e trabalhar no Brasil?

Acho que eu estava cansada da França e não queria ficar Europa. Estive no Brasil para visitar a Cosmoprof Cosmética e a Natura para quem, como engenheira mecânica eu já prestava assessoria técnica com Surlyn da DUPONT. Isso foi em 1996. Na época estive também em Foz do Iguaçu e depois de ver e sentir toda aquela natureza tanta água e a terra vermelha pensei: O que estou fazendo na França? Como havia possibilidades de trabalho por aqui, arrumei minhas coisas, peguei o meu cachorro e vim.

3 – Qual é na sua opinião a importância do design num produto cosmético ou de perfumaria?

É fundamental. Na primeira compra o que seduz o consumidor é o design e a cor. A fragrância ou a qualidade do produto é o que o fideliza.


 
4 – As empresas cosméticas brasileiras de modo geral apresentam bom design para suas embalagens?

Acho que as empresas brasileiras deveriam ganhar confiança e não ter medo de arriscar novos conceitos, próprios ao Brasil, sem tentar copiar a Europa, porque aqui há muitos recursos.

5  – Recursos técnicos também?

Sim porque há muitas empresas internacionais implantadas aqui que podem desenvolver qualquer tipo de trabalho. Mesmo as empresas nacionais que estão cada vez mais aptas, tanto para acompanhar o design desde o início como para organizar e criar um outro processo de produção na viabilização do produto de maneira fiel.

6 – Como você imagina que seriam esses conceitos próprios do Brasil?

Desde que estou aqui, há cinco anos, penso que deveria haver uma inversão do fluxo Brasil-Europa, em relação ao design. Porque o Brasil é um país que tem bem mais recursos naturais que a Europa. Tanto a natureza é mais rica como ela oferece uma fonte criativa sem limite. A Amazônia é uma das riquezas mais invejadas do globo. Ela deveria ser mais investigada para desenvolver produtos, tanto fragrâncias novas, como produtos completamente naturais. Mesmo em relação ao design, a natureza é “naturante”, ela mesma cria. É uma potência criativa incansável.

7 – Porque você acha que está sendo tão requisitada nesse mercado?

Acho que não sou tão requisitada quanto eu queria.
Na verdade, acho que é por conta de uma grande oportunidade que tive com grandes marcas da França. Vários brasileiros já me conheciam da época em que eu trabalhava lá.

8 – E o que pensa agora sobre trabalhar aqui?

É bom de trabalhar um conceito novo, próprio do Brasil, longe da experiência francesa. No entanto essa experiência ajuda muito e abre alguns caminhos.

9 – Qual a vantagem e a desvantagem de uma empresa apostar em seus designers internos?

É muito difícil haver liberdade criativa com uma certa política da marca, porque ela já vai corroendo o processo criativo.
Já uma pessoa de fora tem uma percepção geral do mercado, do segmento onde o produto será desenvolvido. Ela pode entender o foco da empresa, mantendo a criação solta, sem se prender.
A única vantagem é o custo. E mesmo assim, não acredito que isso seja realmente um ganho. O custo de se manter uma pessoa na empresa exclusivamente para criar quando ela provavelmente não está criando o tempo todo é praticamente o mesmo de se contratar um profissional para trabalhos específicos.

10 – E você é uma profissional cara?

Estou na faixa ética do mercado, digamos assim.


11 – Como é o seu contato com as empresas?

Antes eu trabalhava com uma equipe de designers franceses de perfumaria. Só que ficou muito difícil o intercâmbio, com os prazos sempre para ontem dos clientes. Então eu decidi me juntar ao grupo NÓ Design, de designers brasileiros, que tinha interesse em perfumaria. Comecei então a dividir com eles a linguagem perfumaria. Juntos trabalhamos tanto o conceito quanto as formas e viabilização técnica. Com essa parceria, os clientes começaram a abrir a criação nacional sem recorrerem aos designers franceses. A Avon que desenvolvia seu design exclusivamente nos EUA passou a criar o design de alguns produtos brasileiros conosco.


12 – Qual é a sua dinâmica de trabalho?

Primeiramente examino o interesse do cliente. O que ele quer. Depois vejo se eu posso atendê-lo. Então, se ele não tem um conceito estabelecido, eu proponho um caminho em relação ao público que ele quer atingir, a classe que ele quer tocar, a faixa etária. Aí sim começo a desenhar.


13 – Qual é o seu momento de criação? A hora em que a idéia vem?

Quando eu me esvazio. O vazio é a fonte de criação.

14 – Você conhece alguma escola de design no Brasil? Conhece revistas especializadas em design brasileiro ou artistas brasileiros?
 
Muito pouco. Limito um pouco o volume de informações que recebo. Eu acho que a aproximação direta com o consumidor de cosmético ou perfume é mais positiva. Observar o cotidiano das pessoas e tentar entender o que ele o consumidor espera para melhorar a magia do seu dia a dia.


15 – Você acha que o trabalho do design poderia ser mais considerado no país?

Na verdade eu gostaria que os brasileiros aceitassem mais a essência deles. Sobretudo na criação de um produto que pode ser usado diariamente.
Esse trabalho precisa incorporar o ser humano mesmo. Para isso, durante o processo criativo, não deverá transparecer nenhum ego, que é o maior veneno para o sucesso do produto final.
Além disso, as pessoas têm de ter consciência de que um produto, um objeto tem espírito, tem energia e que essa energia depende muito da relação que existe entre as pessoas que o utilizam e pessoas que o desenvolveram.