1- Como a Chemyunion consegue coletar e processar ativos naturais da Amazônia para o mercado nacional e internacional, diante dessas queimadas que temos visto na TV?

Uma questão interessante, mas difícil de ser respondida porque quando falamos em queimadas na Amazônia historicamente essas queimadas ocorrem anualmente na Amazônia, onde existem diversos  focos na região. Curiosamente este ano houve mais focos e essas queimadas ocorrem, quer seja pela secura, e combustão espontânea por conta do clima seco que propicia esses eventos, quer seja por uma prática considerada inclusive sustentável para o morador de dentro da floresta, o ribeirinho ou o caboclo (da miscigenação de índio com branco), que queima suas terras nessa região, porque é com as cinzas que o solo se enriquece, por que ainda que o solo da floresta seja rico em árvores, ele é um solo muito pobre para o cultivo e o próprio caboclo precisa dessas cinzas para ele poder transformá-lo em solo produtivo, até porque eles vivem de culturas de subsistência. Então, nessa prática, que é ecológica e inclusive que faz com que o ribeirinho se fixe na floresta e não migre para outras áreas, há também uma possibilidade de haver um descontrole e causar um foco de queimada.

A Amazônia corresponde a 60% do território brasileiro. Nós estamos falando de mais de 8 milhões de quilômetros quadrados. Para nós imaginarmos que vá haver uma correlação direta entre os focos dos incêndios e as fontes de fornecimento teríamos que avaliar que o fogo está ocorrendo aonde estão as fontes – e não é esse o caso. Dado que é um território tão grande, que é possível haver esses focos por toda a Amazônia e não necessariamente comprometendo a safra dos ingredientes.

Também há a questão da safra. A queimada pode estar ocorrendo em um momento em que a safra do ingrediente não esteja ocorrendo. Então eu posso ter uma matéria-prima que esteja em um ciclo em que a safra, por exemplo, de outubro a fevereiro, no Verão da região – as queimadas ocorrem no Inverno –  não seria afetada, porque as compras, os abastecimentos já foram feitos, assim como os estoques, e isso não tem uma correlação sobre as condições de fornecimento e nem sobre a disponibilidade de material para se poder fabricar produtos.

Nós também temos que ter em consideração que os modelos orientados pela sustentabilidade, que organizam essas cadeias, eles são feitos envolvendo várias pessoas de uma determinada comunidade, associação ou cooperativa. Quando agrupamos essas famílias, não há a caracterização de 100% de pessoas envolvidas e, portanto, você tem áreas diferentes distribuídas numa área muito maior. Então você tem cada um no seu pedaço de terra, espalhados numa determinada região. Ai nós teríamos também que admitir que numa condição extrema, o fogo teria que ser pego em todas as regiões, em todas as áreas e em todas as famílias. E nem todas as famílias são arroladas. Além do que, o sistema quando ele é embasado em prática sustentável, seja ele de extrativismo, ou corruptivo, há na verdade um Plano de Manejo que preconiza que, das áreas que vão ser exploradas, para uma área de extrativismo , duas ficam em descanso. Então os eventos que vimos na televisão fazem parte de uma dinâmica regional. É claro que esse ano se exacerbou em função de um aumento dessas queimadas, mas elas não têm uma relação direta com a fonte de ingredientes, por exemplo, no caso específico da Chemyunion, da onde ela colhe, compra e retira seus ingredientes. Há casos inclusive em que o cultivo da planta é feito aqui dentro da Chemyunion e, portanto, não há nenhuma exposição a esse risco de não ter o produto, não conseguir abastecer. Mas sim faz sentido e é interessante notarmos que não há uma correlação direta entre os dois eventos.

 


2 – As áreas de coletas e catadores de sementes estão protegidos? De que maneira?

Essa é outra questão complexa. Há um entendimento no meio ambientalista de que a proteção não funcionou. Os sistemas protecionistas que transformaram a floresta em intocável não deram certo. Então, se nós tomarmos a medida de proteção no conceito de que seria a intocabilidade a base da conservação, esse modelo já está comprovado que não funcionou porque enquanto nós dizíamos que a floresta estava intocada, ela estava sendo derrubada. Quer seja por exploração excessiva da madeira, quer seja por expansão do plantio, das áreas de pastagem, o que nós descobrimos ao longo do Pós-Guerra, até uns 20 anos atrás, é que esse modelo não dá certo. Então proteger não é a forma de fazer com que a floresta fique em pé. O que nós precisamos é fazer com que a floresta fique em pé, a partir do valor que é gerado a partir dela e aí medidas conservacionistas, ou seja, trabalhar na conservação é o que tem se mostrado como modelo mais efetivo de fazer com que a floresta fique em pé. A conservação, por exemplo, vai preconizar os parques, que são usados para fazer visitação, o que gera  receita e manutenção. Então aquela paisagem de parques enormes, tem potencial turístico, ela passa a ter um valor econômico, porque as pessoas pagam para visitá-los, assim como em outros países, já que tais áreas tem uma utilidade e um valor. Então a floresta em pé significa valor. A proteção nesse sentido, não é viabilizadora de desenvolvimento ou de sustentabilidade e não ajuda para que a floresta seja conservada. Então eu acho que sim, mas deveriam estar protegidas através da utilização que  gera valor e não através da intocabilidade das coisas.

 

 

3 – O mercado nacional e internacional pode se sentir seguro de que o fornecimento de determinados ativos será mantido e será contínuo?

Se a pergunta se dirige diretamente à Chemyunion, sim. Bastante tranquilo. Porque nós, além de termos estoques de matéria-prima, de produtos acabados , temos algumas das fontes nós controlamos verticalmente, ou seja, do plantio até a extração. Portanto nós temos todas as condições de manter o mercado abastecido.

 


4 – O modelo de certificação do FSC  – Conselho de Manejo Florestal – por exemplo, não precisará sofrer algum tipo de ajuste, considerando as queimadas em locais distintos e atingindo estradas, caminhos e as perdas da natureza?

Há vários conceitos aí. Vamos tentar organizar. O FSC – Forest Stewardship Council, – surgiu de um processo que aconteceu da indústria de madeira na Europa, que fazia a extração de madeira e tentava vender a ideia de que a sua extração era sustentável. Então havia vários planos de extração de madeiras, para cada pessoa que tinha serralheria, marcenaria ou comprava aquela madeira. Criou-se então um selo certificando que tais e tais madeiras eram sustentáveis. O fato é que esses selos se disseminaram por toda a Europa e se percebeu que haveria uma dificuldade depois, por conta de tantos selos e critérios diferentes, e que não seria possível saber se realmente as práticas estavam sendo sustentáveis ou não. Então se decide abandonar, cada um o seu selo, formar um Conselho e esse Conselho criar um critério de sustentabilidade. É bom lembrarmos que o critério de sustentabilidade foi divulgado em um relatório chamado Our Common Future que é de 1986. Esse relatório dá pela primeira vez a base de que sim, nós precisamos preservar os recursos atuais para as gerações futuras. Os chineses gostam de dizer que nós não herdamos a Terra, nós a tomamos emprestado de nossos filhos.

Então nesse conceito se cria pela primeira vez um triângulo que é o ecologicamente correto, socialmente justo, economicamente viável, quando o FSC criou os seus dez critérios de base da sustentabilidade. Primeiro ele nasceu muito relacionado à indústria da madeira. O que significa tudo isso é que existe um Plano de Manejo Florestal, em que as árvores não são cortadas, são colhidas e naquele lugar onde ela foi colhida, há outras árvores nascendo, assim como é feito no manejo nas áreas de cultivares. Nas áreas florestais também se faz o manejo, onde só se extrai determinadas árvores, outras são deixadas, de maneira que enquanto umas estão sendo extraídas, outras estão crescendo e dessa forma você faz o desenho de sustentabilidade. Nós temos dois outros eixos que é ser ecologicamente correto, que é essa é a forma, através do processo de manejo responsável, depois nós vamos ter a vertente socialmente justo, ou seja, se você está interagindo com a comunidade que tem acesso a uma determinada espécie ou que você aprendeu e acessou o conhecimento tradicional associado àquela espécie, do contato com aquela comunidade, é justo que aquela comunidade participe economicamente desse processo. Então os eixos mencionados vão se ajustando e o socialmente justo pressupõe que uma organização treine, explique inclusive às comunidades o que é sustentabilidade, porque sustentabilidade é um conceito civilizatório, que a sociedade criou a partir de um entendimento da necessidade de preservação mas quem esta fazendo esse processo é o outro, que vive na floresta e que não tem essa nossa leitura de cidade, sociedade organizada, estruturada, olhando para aquele lugar que precisaria ser preservado e conservado.

Quando falamos no FSC, de sustentabilidade, eles têm critérios, organizam e acreditam e no sentido de dar crédito, a determinadas empresas que vão ser suas representantes e com base nos critérios criados pelo FSC elas vão auditar as empresas que voluntariamente encamparam ou que pediram ou que desenvolveram sistemas sustentáveis, para que esses sistemas sejam auditados em relação ao critério do FSC. O FSC inclusive já evoluiu para modelos não madeireiros, eles já têm critérios para isso. Mas eles só criam critérios e acredita empresas de consultoria que possam depois auditar se os critérios estão dentro desses conceitos e se o critério está de acordo, o FSC emite um certificado e ele certifica não só o plantel, mas a cadeia de logística, que é chamada de cadeia de custódia e essa certificação recebe um número. Através desse número, no site do FSC, encontra-se o Smart Wood, porque esse é um selo creditado pelo FSC, um COC, que quer dizer Custody of Chain, logo na frente desse selo encontra-se outro número e esse outro número é o número da cadeia de custódia. Se esse número for acessado, será possível verificar toda a rastreabilidade da cadeia, do ponto de consumo até sua origem na floresta. Mas o FSC só se limita a essa área, não se conecta com outros impactos que na sua pergunta são colocados, como estradas. Isso não diz respeito ao FSC.

 


5 – Haverá um tempo para a recuperação das áreas queimadas das florestas. Isso significa também que alguns dos produtos produzidos com ativos da região precisarão de um tempo para voltarem a ser colhidos e processados? 

Não, está tão espalhado. A gente não tem notícia de nenhum ativo sendo impactado por esses incêndios. De novo temos que lembrar que estamos falando de 61% do território brasileiro , estamos falando de aproximadamente 4,8 milhões de metros quadrados . Se fizermos uma conta rápida, 4 milhões e 800 mil quilômetros quadrados e dentro disso, muita coisa pode ter acontecido com vários focos de incêndio, mas não há relatos, pelo menos que impactem diretamente à Chemyunion e portanto é claro que a recuperação vai ser feita e existem entidades inclusive e ONGs que se organizam para cuidar disso em eco-regiões. Nessas eco-regiões a WWF, Greenpeace, Friends of the Earth e uma série de ONGs brasileiras estão empenhadas nesse processo, além do próprio governo, que tem dado estímulos e colocado o próprio exército para cuidar desses incêndios. Para nós os impactos são perto de zero.

6 – O CGEN impôs restrições à comercialização de determinados ativos depois desses fatos?

Não, não há nenhuma restrição do CEGEN, que não tem esse aspecto regulatório. Ele controla o acesso ao patrimônio genético, não está relacionado à sustentabilidade. A Chemyunion por exemplo, pode acessar o patrimônio genético porque faz o plantio e ele nem está na floresta. Mas é uma espécie que precisamos reportar porque estamos acessando o patrimônio genético. Então não há pertinência para que o CGEN execute qualquer tipo de restrição nesse sentido.

 


7 – O órgão tem autonomia para aplicar a legislação que proteja a Amazônia e que, ao mesmo tempo, incentive a agricultura e o desenvolvimento mais sustentáveis? 

Não, esse também não é o papel dele. O papel do CEGEN é regulatório, do ponto de vista de acesso ao patrimônio genético e ao conhecimento tradicional associado. O que ele busca em essência é que se você esteve em contato com uma comunidade no Amazonas, que disse que determinada planta serve para curar dor de estomago, você está acessando o conhecimento tradicional associado. Um exemplo mais prático disso é o chimarrão, na cultura gaúcha. Ele deriva dos índios. Quando os índios estavam sendo utilizados como mão de obra, e consumiam muita carne, que é uma dieta na qual eles não estavam habituados, eles tinham dificuldades digestivas. Os padres notavam que eles faziam um chá e tomavam e descobriram então que o chimarrão era esse chá que eles tomavam e que ajudava a digestão da carne e isso passou a ser um hábito coletivo. Então esse é um conhecimento tradicional associado. A pergunta que se faz das hipóteses da base da criação do CEGEN era pensar: se alguém a partir da base zero, tivesse que pesquisar todas as ervas para descobrir esse efeito, quanto tempo ele levaria e quanto ele gastaria? Os finger prints, as contas, grosso modo eram assim: eu gastaria 10 anos e gastaria R$ 1 milhão e se isso realmente tivesse acontecido, eu teria economizado R$1 milhão e 10 anos de tempo na minha pesquisa. E dessa forma, é justo que eu compartilhe do ganho que estou tendo, com aquele que me originou esse conhecimento. Então, quando você vai a benzedeiras ou a um mercado que te oferecem aquelas raízes, aqueles tratamentos mais naturais, você está justamente fazendo acesso a um conhecimento tradicional associado. Quando você extrai aquele ativo que faz o efeito, você teve acesso ao patrimônio genético. Então, o que o CEGEN regula são essas duas bases e não tem uma conexão com a sustentabilidade. É claro que as empresas que estão utilizando e desenvolvendo esses ativos, estão fazendo de uma forma sustentável, mas a sustentabilidade é uma responsabilidade de quem vai explorar a espécie e não uma responsabilidade do CEGEN, que não faz nenhum controle sobre isso. Apenas se você está ou não acessando o conhecimento tradicional associado ou o patrimônio genético de uma determinada espécie e aí o órgão tem todos os critérios que estão na legislação.

 

8 – Regulando o acesso a biodiversidade, neste momento, não seria uma forma de o CGEN proteger a floresta?

Não tem essa relação. O CEGEN não faz isso. Não é papel do CEGEN,  proteger. Nós precisamos entender – e eu vou insistir nesse ponto – que a proteção às vezes não serve nem para os inocentes. É a exposição ao mundo que te faz mais forte, mais resiliente a ele. Quando a gente lê as histórias de Chapelzinho Vermelho, ou de João e Maria o que faz com que João e Maria,o que faz com que João e Maria entrem na casa da bruxa é a inocência. Essa ideia de que estamos protegidos e depois você vai lá e encontra a bruxa. A inocência não nos protege. E esse papel, não é só um papel do Estado, porque nós estamos imaginando que o Estado brasileiro, também teria condições de oferecer uma proteção, mas ele está quebrado. Está em condições poucas de oferecer qualquer tipo dessa ordem. O que nós já descobrimos também é que toda vez que o Estado tentou fazer isso, não deu certo. Porque seria preciso mobilizar uma quantidade de recursos enorme. Imagine, são quase 5 milhões de metros quadrados como executar um plano protecionista dessa monta, dessa ordem.

Então, essa visão de que essas instituições existem para proteger, é uma visão um pouco conservadora, daquilo que hoje é mais moderno pensar, que na verdade, a utilização responsável do bem, faça com que ele se preserve, se conserve, e portanto a sua exposição, não a sua proteção é que o faz funcional. Um outro exemplo que podemos olhar nessa visão pública, é o caso dos imóveis no centro de São Paulo. É entendido que toda vez que abrimos esses imóveis e conseguimos gerar um museu, criar uma utilidade, as áreas aonde esses imóveis estavam instalados se tornaram mais valorizadas e os imóveis mais conservados. Então há esse papel do CEGEN. Talvez o órgão que poderia fazer isso seria o IBAMA (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis), que poderia sim tomar decisões ambientalistas. Mas são outras instituições que são coligadas ao Ministério do Meio Ambiente que teriam essa responsabilidade. O próprio Ministério do Meio Ambiente poderia também tomar algum tipo de decisão, mas como todo mundo entende que estas são questões transitórias, essa fase já passou, há uma estabilidade no número de focos de incêndio e a vida segue para um ponto mais regular e normal.